O script de Lost in Translation

28 Jan

Recentemente li o script de Lost in Translation. Um texto aparentemente simples, fabuloso.

if you need to feel good..

27 Jan

Vi o Whatever Works este fim-de-semana e não resisto a pôr este monólogo aqui. Há gente que escreve muito bem. Genial.

I’m not a likeable guy. Charm has
never been a priority with me.

And just so you know, this is not
the feel-good movie of the year.

So if you’re one of those idiots
who needs to feel good,

go get yourself
a foot massage.

What the hell does it all mean
anyhow? Nothing. Zero. Zilch.

Nothing comes
to anything,

and yet there’s no shortage
of idiots to babble.

Not me. I have a vision.
I’m discussing you.

Your friends, your co-workers,
your newspapers, the TV.

Everybody’s happy to talk,
full of misinformation.

Morality, science, religion,
politics, sports, love.

Your portfolio,
your children, health.

Christ. If I have to
eat nine servings

of fruits and vegetables
a day to live,

I don’t wanna live. I hate
goddamn fruits and vegetables.

And your omega-3′s and the
treadmill and the cardiogram

and the mammogram
and the pelvic sonogram

and, oh, my God,
the colonoscopy!

And with it all, the day still comes
when they put you in a box

and it’s on to the next
generation of idiots

who’ll also tell
you all about life

and define for you
what’s appropriate.

My father
committed suicide

because the morning newspapers
depressed him.

And could you blame him?

With the horror and corruption
and ignorance and poverty

and genocide and AIDS and
global warming and terrorism

and the family-value morons
and the gun morons!

“The horror”, Kurtz said at
the end of Heart of Darkness.

“The horror”

Lucky Kurtz didn’t have
the Times delivered in the jungle,

then he’d see
some horror.

But what do you do?

You read about some
massacre in Darfur

or some school bus
gets blown up,

and you go,
“Oh, my God, the horror!”

And then you
turn the page

and finish your eggs
from free-range chickens.

Because what can you do?
It’s overwhelming.

the joy of books

21 Jan

Há pessoas que amam

19 Jan

Há pessoas que amam

Com os dedos todos sobre a mesa.

Aquecem o pão com o suor do rosto

E quando as perdemos estão sempre

Ao nosso lado.

Por enquanto não nos tocam:

A lua encontra o pão caiado que comemos

Enquanto o riso das promessas destila

Na solidão da erva.

Estas pessoas são o chão

Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos

E pôs um fruto negro no lugar do coração.

Estas pessoas são o chão

Que não precisa de voar.

 

Rui Costa

é estranho pensar que um olhar destes já não existe

 

Num sonho

18 Jan

Num sonho deram-me um pincel de muitas cores

Para escrever nas pétalas uma mensagem às nuvens da manhã

Li Shang-Yin

Desnudar-se

7 Jan


Às vezes sabemos sobre os outros coisas que não dizemos e que não lhes dizemos. Às vezes trespassamos os muros e somos íntimos da dor, da falta, da procura, tocamos uma beleza pungente, muito para além da barreira da pele e da rudeza das palavras. Às vezes os outros têm uma luz especial. A luz das coisas quebradas e ternas. Às vezes desviamos o olhar. Talvez por pudor. Poderíamos dizer tanta coisa e não dizemos. Mas sabemos.

O casaco

6 Jan

A minha sócia, embora bem mais nova do que eu, tinha sem dúvida muito mais experiência no terreno. Veio dizer-me que o casal da mesa do fundo tinha vindo jantar numa “blind date”. Observei-os por uns instantes: eram mais baixos do que a média dos belgas, loiros, de pele clara e roliços. Quase quarentões. Pareciam estar bem um para o outro. Havia outro casal na sala, obviamente casados ou a viverem juntos, trintões, um aspeto mais mediterrânico, mais altos e encorpados, talvez italianos, há muitos italianos na Bélgica. A noite decorria calma. Estava frio. De passagem, reparei nos casacos do bengaleiro da entrada. Curiosamente, os casacos das duas senhoras eram iguais, um modelo da Evam, talvez, compridos, quentes e castanhos.  O casal “italiano” saiu mais cedo. Não comeram sobremesa. Estavam com pressa.

Quando finalmente o casalzinho “blind date” se levantou para sair, a senhora vestiu o casaco que tinha deixado no bengaleiro e daí a segundos percebeu que não era o dela. Este era um pouco maior, embora do mesmo modelo e até da mesma cor… e, sobretudo, não tinha as chaves que tinha trazido no bolso. A única explicação era que a cliente que tinha saído anteriormente tinha trocado de casacos. Não tínhamos evidentemente o contato do casal que saíra mais cedo e supunhamos que quando dessem pela troca, nos telefonariam, mas não tínhamos como os contatar. A senhora mostrava-se cada vez mais preocupada. Ela era florista e as chaves que trazia no bolso do casaco eram da loja, que por sua vez dava acesso ao apartamento em que vivia. Ou seja, sem as chaves não podia entrar em casa. E os parentes mais próximos, onde ela poderia ir passar a noite, viviam mesmo assim afastados. Enquanto ela ficava cada vez mais agitada e preocupada, eu tentava encontrar uma saída, que obviamente não tinha. O acompanhante dizia que se arranjaria uma solução, a senhora não ficaria na rua. Eu cada vez mais preocupada, pedia desculpa, je suis désolée, não sabia o que dizer, até que parei para o olhar. Por trás das palavras de circunstância que repetia, “não se preocupem, arranjaremos uma solução”, os olhos dele sorriam de tal forma que os lábios não conseguiam permanecer sérios mesmo que quisesse. Relaxei.

Ainda antes de fecharmos o restaurante recebemos um telefonema do casal italiano, tinham ido ao cinema e só aí a mulher se tinha apercebido da troca dos casacos ao descobrir as chaves no bolso, embora já antes tivesse sentido que era um pouco apertado. Passariam no dia seguinte para o devolver.

Um ano depois, o casal “blind date” jantava no nosso restaurante. Ternos e cúmplices, estavam ostensivamente a comemorar a data.

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