A primeira morada de silêncio

Acrílico sobre mdf. Julho 2012, Margarida Cardoso

referência ao verso de Al Berto “A escrita é a minha primeira morada de silêncio”

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realidade ou ficção

“I didn’t want to tell the story of myself, but someone I called myself. If you read yourself as fiction, it’s rather more liberating than reading yourself as fact.”

— Jeanette Winterson

(Não queria contar a minha história, mas a história de alguém a quem chamei eu. Ler-se enquanto ficção é mais libertador do que ler-se enquanto facto)

Poetry


“Hours of solitude, hours of creation, hours of meditation. Solitude and meditation gave me an awareness, a perspective which I have never lost: that of solidarity with the rest of mankind. Since that time I have always proclaimed that poetry is communication, in the exact sense of that word.”

Vicente Aleixandre

Creativity is our birthright


Creativity is our birthright. It is an integral part of being human, as basic as walking, talking, and thinking. . . . . The creative process, like a spiritual journey, is intuitive, nonlinear, and experiential. It points us toward our essential nature, which is a reflection of the boundless creativity of the universe

The Zen of Creativity
Cultivating Your Artistic Life
John Daido Loori

Ver

No parque havia um velhote que era caçador, daqueles a sério, que antes de caçarem sonham com os animais. Andámos horas a pé e quando chegámos lá estava o fulano sentado. Eu pensei: “Já vi isto.” Ele estava numa esteira, com um facão a fazer uma zagaia. Não nos cumprimentou, não falou connosco. Só quando eu disse que era um contador de histórias, não ia dizer escritor, e que gostava de ouvir as dele, é que levantou os olhos e olhou para mim. Disse que no dia seguinte, às 4h, me levaria à gruta das hienas. Lá fui. Mostrou-me pegadas de animais, andámos assim toda a manhã. Depois almoçámos e perguntei-lhe se à noite podíamos fazer o mesmo para ver animais que só circulam à noite. Ele respondeu: “Você não percebeu nada. Sou cego, não vejo. Só vejo quando estou a caçar, e de noite não caço.” E eu lembrei-me que já tinha ouvido isto. Há uma frase minha no “Jesusalém”, dita por uma das personagens, um velho também, que diz: “Só vejo quando escrevo.”

Mia Couto

originalidade

É curioso. Só se julga profundo o que disser coisas diferentes de toda a gente. E todavia a grande originalidade está em dizer as mesmas coisas, mas ao nível do espanto e maravilha que nos despertam. Toda a gente sabe que o homem é mortal, mas poucos vêem isso e se espantam de que seja assim. Toda a gente sabe que há bichos e plantas e estrelas e o mais. Mas conhecê-lo ao nível do extraordinário que aí existe é raro como ser doido.

A grande originalidade não é dizer coisas novas mas ser novo diante das coisas velhas.

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 3’