o cinzento é o novo preto

Apesar de Alexandre ter um olho de cada cor, só conseguia ver o mundo numa tonalidade: cinzento. Cinzento claro, cinzento escuro, cinzento assim-assim talvez, cinzento mais coiso e tal, por vezes um cinzento lua profundo, raramente um cinzento sol vivo. Alexandre considerava-se uma pessoa muito pragmática e afirmava perentoriamente que não, não havia necessidade de cor na vida. O cinzento é o novo preto dizia, tem estilo e é conveniente para qualquer situação. Para quê perder tempo a escolher diferentes cores de gravatas ou camisas, para quê perder tempo a observar um pôr-do-sol e as papoilas à solta nos campos? Os impúdicos amores-perfeitos dos canteiro dos jardins municipais eram por ele ignorados e o asfalto e o telemóvel eram tudo o que precisava para circular.

 

Quando lhe diziam que no mundo há todo o tipo de tonalidades e que as pessoas são diferentes e podem precisar de coisas diferentes, dizia que sim, claro, mas perguntava se não seria mais simples se todos adoptassem a sua visão. E de qualquer forma o cinzento não era de todo básico, pois tinha vários graus e infinitas texturas. E entusiasmava-se a gabar o cinzento cristalino manhã de maio e o cinzento penugento noturno.

 

Um dia perguntaram-lhe se era feliz. Ele abriu os olhos, um de cada cor, verde e azul, que ele ao olhar ao espelho mal percebia como uma diferente tonalidade de cinzento médio. E disse que sim, que tinha muita qualidade de vida, era muito prático e não perdia tempo com frivolidades e passatempos coloridos.

 

Ao chegar a casa nessa noite sentou-se no seu sofá cinzento caldeirão a olhar o jornal pousado na mesa à sua frente, num lusco-fusco que geralmente considerava delicioso. Costumava apreciar e relaxar no ambiente minimalista do seu apartamento, mas desta vez um arrepio percorreu-lhe a espinha e sentiu frio. Um frio imenso que percorreu todos os músculos, um a um, e se instalou nos ossos, e que não passou, mesmo depois de um duche bem quente e de se deitar na cama com três edredões em cima. No dia seguinte ligou para a empresa a dizer que estava doente e ficou na cama a tiritar. Ficou a pensar que poderia ficar deitado o tempo que quisesse que ninguém ia notar. Passou um dia, passaram dois, passaram três. Ele só saía da cama para ir à casa de banho.

 

Ao terceiro dia levantou-se a meio da tarde. Foi tomar um duche, barbeou-se, vestiu a camisa clara quase gelo, o fato cinzento chumbo clássico, e pôs a gravata de riscas diagonais em três tons de cinzento lustroso. Passou pela garagem buscar o seu audi cinza metalizado. Dirigiu-se a um centro comercial muito frequentado. Entrou numa loja de roupas e depois numa agência de viagens. Dirigiu-se a seguir ao aeroporto. Foi primeiro à casa de banho dos homens. Quando fez o check-in vestia umas bermudas e uma camisa tipo havaiana. Não se sabe para onde viajou, apenas que era um lugar quente e com pores-do-sol abrasadores.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s