Coração de pássaro

Sim, acomodara-se, fazia o que todos os velhos faziam, passava lentamente através dos rituais do dia, e também ritualmente vinha sentar-se no banco de um jardim a sentir o conforto do sol. Era capaz de passar horas sentado naquele banco, a observar as árvores, a robustez dos troncos, as folhas que agora amareleciam, a luz que se espraiava sobre a relva e o fazia piscar os olhos, o contraste da vegetação com os edifícios, o restolhar de passos, as pessoas que atravessavam o jardim, os seus gestos, as palavras apanhadas aqui e ali, gostava de comparar os cães com os seus donos, observava também as crianças, as suas brincadeiras e as suas birras. Olhava-as curiosamente, como se analisasse um qualquer objeto ao microscópio, à procura de ver o adulto em que elas se tornariam. Sempre se achara superior a essa gentinha que observara ao longo da vida, gente sem educação, sem bom senso, histérica e boçal, que se ufanava e esbracejava para arrancar o seu miserável quinhão de felicidade a uma vida medíocre. Um pequeno prazer irrisório facilmente substituído pela cobiça de outro prazer. Ignorantes…

E mais uma vez viera sentar-se no mesmo banco, pouco mais ou menos à mesma hora, e mal acabara de se sentar, um pássaro caiu do céu, obviamente ferido, um pequeno pássaro cinzento e amarelo, bem na sua frente. Só teve tempo de se sentir chocado, um pássaro morto bem ali à sua frente, caído do céu, que desagradável. Com tantos sítios onde cair… Não havia obviamente nada a fazer, e ia encetar a leitura do jornal, quando uma mulher parou e se debruçou sobre o pássaro, soltou um pequeno oohh.. de alguém que lamenta que algo gentil e frágil se magoe, pegou no passarinho e colocou-o cuidadosamente em cima da relva, do outro lado do caminho. A mulher certificou-se que o pássaro ficava em segurança, deu uns passos, mas depois voltou atrás, para lhe deixar umas migalhas de pão. Finalmente seguiu caminho. Ele voltou a pegar no jornal, de vez em quando olhava o pássaro, muito quieto, parecia morto. Ele tinha horror a corpos mortos, nunca seria capaz de lhe tocar. Mas quando se levantasse iria ver como estava. Não imaginava o que poderia mais fazer. Passados uns minutos, um homem que passava viu o pássaro aos pés do banco, pegou nele, o pássaro debateu-se, que estranho, pensou que o pássaro estivesse morto, o homem tentou prendê-lo nas mãos, naqueles breves segundos, pôde ver nele a cobiça de agarrar algo bonito e indefeso, mas o pássaro conseguiu fugir, levantou voo e pousou alguns metros à frente. E depois desapareceu. Nesse mesmo momento o coração do homem sentado no banco parou.

Sentiu-se confuso, tinha uma ideia vaga de estar sentado num banco de jardim a apreciar o calor do sol e de repente via-se naquele lugar frio, sentado, à espera, não sabia de quê, e não soube quanto tempo passou assim, perdia-se em alguns pormenores, um risco na parede em frente, a cor baça da madeira dos bancos, no canto estava uma televisão ligada, mas não captava qualquer canal. Parecia uma sala de espera num hospital, a luz crua, paredes beges, nada digno de nota, ficou ali sentado muito tempo e talvez até tenha adormecido, tentava lembrar-se, o que é que acontecera, estava num banco de jardim, sim, e agora estava sentado numa sala de espera, estava ferido, doía-lhe alguma coisa, não, não sentia nada, nem mesmo as dores das articulações que o faziam sofrer, alguém o chamava, perguntou, onde estou?, o que está a acontecer? Alguém com a atitude de um funcionário apenas disse “siga-me, chegou a sua vez” e conduziu-o pelo corredor cinzento até à última porta da esquerda. “Pode entrar”, disse do interior uma voz roufenha. Abriu a porta, viu uma mesa e uma cadeira no meio do compartimento, uma grande janela deixava passar uma luz forte e não conseguia perceber quem estava na sala. Sentou-se e fechou levemente os olhos, para tentar ver através da cegueira da luz. Alguém fez deslizar uma persiana e através da luz menos intensa, já conseguia entrever uma espécie de podium à sua frente, com alguns pássaros, sim, pássaros, um corvo à esquerda, uma andorinha e uma gaivota à direita, e uma coruja no alto do podium. Sim, era mesmo uma coruja. A voz roufenha fez-se novamente ouvir: “Diga-nos o nome, naturalidade e última morada.” A voz parecia vir do corvo. Respondeu automaticamente. António Soares Pinto, natural de Vila Real, vivo na Travessa Heróis da Pátria, no Porto. “O senhor sabe por que está aqui?” Intimidado, e sem pensar na incongruência do tratamento, respondeu rapidamente “Não senhor, não sei”.

– O Senhor António Soares Pinto é acusado de indiferença, de negligência e não assistência a um pássaro em perigo. É ainda acusado de egoísmo, arrogância, comodismo, quezilência e ingratidão. O que tem a dizer em sua defesa?

– Ena, onde foram buscar essas ideias?

– Nega que um pássaro ferido lhe caiu aos pés e não se mexeu para o ajudar?

Um pássaro? Sim, um pássaro, no jardim. Alguém o pusera a salvo e lhe dera migalhas. Não havia muito que pudesse fazer…

– O seu silêncio fala por si só. Nega então o seu egoísmo e comodismo? Preferiu desde sempre a sua vidinha confortável a envolver-se com os outros.

Dito daquela forma, parecia pior do que era. As mais das vezes via-se como um espetador, é verdade, mas…

– Nega ainda a sua arrogância? Não avalia toda e qualquer criatura com desdém, sentindo-se sempre superior a todos, não dando espaço a nenhuma forma de empatia?

Isto já estava a ir muito longe. Abriu a boca para dizer alguma coisa em sua defesa:

– Não me sinto superior a todos, mas a grande maioria…

– Sim, sabemos o que pensa sobre “essa gentinha”. E não se tornou com o tempo cada vez mais impaciente, criticando tudo, zangando-se com todos, até ficar reduzido à solidão e à amargura, negando a própria vida? – desta era a voz esganiçada da gaivota a interrogá-lo.

Sentiu como se tivesse recebido um soco. Viu-se como um miúdo num banco da escola a enfrentar o escárnio do professor. Mas são pássaros…

A gaivota soltou um grasnido e exclamou:

– Todas as vidas são importantes! Todas as vidas fazem parte da Grande Vida, a Grande Corrente de tudo o que é…

– Nunca teve nenhum sonho? Nada que o inspirasse? – desta vez era uma voz profunda e lenta, a voz da coruja.

– Eu… eu sempre quis voar.

– Então está condenado a viver o seu sonho. – e, com um bater rápido de asas, os pássaros saíram um a um pela janela meio aberta. Ficou uns momentos apenas a olhar, ainda  mais surpreendido. Podia ver o céu azul, imenso, e a luz que antes quase o cegara, agora parecia-lhe segura e convidativa. O céu azul, pensou. Com o coração tão cheio de alegria que transbordava, abriu as asas e levantou voo.

2 thoughts on “Coração de pássaro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s