VINGANÇA

Está nu, deitado na cama. O lençol branco manchado de sangue. E uma arma na minha mão. Eu olho a arma e não sei por que está na minha mão. Penso se sou mesmo eu, ali, a fixar a arma. Se tudo aquilo é real. Parece a cena de um filme americano qualquer dos anos cinquenta. Só falta a palavra motel, lá fora, a néon. A polícia vai entrar a qualquer momento. E encontra a rapariga com a arma na mão a olhar para o corpo morto do amante. A rapariga do filme, sou eu.

O vestido branco está cuidadosamente esticado sobre a cama, os sapatos alinhados no chão, aos pés da cama uma mala aberta, preparada com roupa interior, camisas, saias, calças, tudo cuidadosamente dobrado, um estojo de toilette, uma máquina fotográfica. Ao chegar a noite, preparas uma refeição rápida, sentas-te no sofá a ver televisão, com uma manta a cobrir-te as pernas. A meio da noite vais à casa de banho, tomas um duche quente, lavas os dentes, pôes uma t-shirt, adormeces no sofá. Sabes que no dia seguinte ainda vais ali estar. Se tu quisesses falar, o que dirias? Se pudesses deixar passar, assim, simplesmente, essa torrente, o que sentirias? Se pudesses parar ou largar, fugirias? Este vazio de ninguém nem de lugar nenhum, esta latência, se pudesses tocar, como o farias? Seria brevemente ou com pressa? Seria contidamente ou asperamente? Se pudesses partir, para onde irias? Ver-te-ia na estação de comboio, na sala de espera, um bilhete no bolso do casaco, sem ouvir as partidas ou as chegadas. Irias até ao fim, até à última paragem, e sairias sem saber onde estavas, sem um vulto, e caminharias pela estrada, determinada. Recordas o apartamento onde esperaste, as horas, o telefonema. As palavras. Atropelamento e fuga, diziam. E em segundos percebeste que não tinhas água no corpo. Lembras-te quando tudo se rompeu e só sobrou a demência.

Eu sei, eu poderia ficar aqui à espera, ficava toda a noite, disponível, só para ti. À espera. Agora que fechei esta porta tenho sede de todas as memórias de ti, de te reencontrar em cada gesto, em cada rosto, em cada paisagem. Quero recordar o teu sabor, o teu cheiro, o som da tua pele. Quero ser livre novamente. Contigo.

Sabes, encontrei-o. O homem que te matou. Está nu, deitado na cama. O lençol branco manchado de sangue. E uma arma na minha mão. Um imenso soluço se forma na minha garganta e ameaça afogar-me como uma onda gigante. Isto é real. Finalmente, isto está a acontecer. Mas tu não voltas.

 

Curso de Escrita Criativa (Para este texto sobre a questão da intenção, foi pedido que a história mencionasse um casal, um quarto de hotel, uma arma e um néon)

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