O fim do começo

O fim do começo

O fim do começo foi às 9 horas em ponto numa manhã de sábado. O fim do começo é o meu Karma. O começo e o fim não convivem muito bem juntos, porque são seres imperfeitos. Ainda não descobri quais as causas que levam a esta circunstância mas cada começo é um fim. Tudo começa a dado momento e o resultado da soma dos momentos pode muito bem ser o fim de algo. Todos os começos são almofadas de cetim e alfazema e escondem nuvens de sonhos em que eu sou uma princesa, amada, bela e bem-sucedida. Cada pesponto no cetim é um passo de amor firme e duradouro. Se somarmos sessenta minutos esgotamos uma hora. Mas somar as horas, os dias, não é guardar as horas, os dias. É sentir as horas e os dias, cada encontro amoroso que teve na partida o “end of the road”, “end of the edge” , “ mind the gap vous allez sortir”. Da mesma maneira, sentir todas as vezes que o coração bateu dentro de um minuto que começou e terminou a dado momento não é guardar o bater do coração. Sentir não é portanto guardar, mesmo que se some, mesmo sentindo que esse somar seja o fim.
O vento assobiava forte e ouvia-se murmurar através das frestas das janelas carcomidas pelo tempo e os maus tratos. Agora como alguém bem sábio escreveu, porque sentiu talvez, mas que por certo pensou, o começo do fim, que é o princípio de algo de bom que está para vir. O sabor que guardamos da fartura quente com canela e açúcar, no ponto, de tal modo que as pupilas gustativas ainda guardam esse delicioso sabor apesar de há muito não saborear uma fartura. Sim, o fim é um começo a acontecer e a dado momento acontece que o ter começado leva ao fim, sem que seja preciso somar. Não acredito no fim perfeito, apenas do fim da linha de comboio, de metro, do autocarro, e não da vida, que não tem um fim à vista, percetível e datado.

O fim do começo foi quando eu olhei para ele, debruçado sobre o café, a resmungar insanidades, de olhar ainda vermelho e voz pastosa, a curva redonda e boçal do queixo a causar-me arrepios e a forma como as mãos se crispavam no papel do jornal a inspirar-me náuseas, o barulho do papel do jornal, foi isso o fim do começo, como se eu não existisse e nem estivesse ali, um ruído indiferente e mesmo gozão, desdentado, uma forma cínica de rastejar pelas ruas da vida.

Foi o fim do começo. Seja o fim de um livro, de um beiral, da cauda de um cão que se deixou ficar, o fim de um lápis porque impossível de afiar, o fim de uma sede no vazio de um copo de água ou então de uma queda em suspensão. Cai-se e é o fim. E tu vais abrir a porta e vais sair sem história de mim, de nós. E eu vou ficar, aqui, mesmo no início do jardim sem saber exatamente o que fazer. Talvez aceitar apenas que o fim desta breve dádiva teve um começo de raiz em mim. Dei dois passos mansos, cerrei a mão no cabo da faca e senti os nós dos dedos a estalarem. Ergui o braço e baixei-o repetidas vezes, secamente e só parei quando não senti mais movimento no corpo dele. O coração treme-me enquanto olho para a porta que é a vida. O coração senta-se e respira com batidas de criança. Foi o começo do fim. Agora ouvia “um minutinho” e esse ouvir é já o começo deste fim que agora se inicia e que ao começar deixa o resto desta página em branco sem que haja um fim. Sento-me à espera de um novo ar.

Rosa, Alexandra, Margarida, Rosário, escrita livre e técnica collage, oficina de escrita criativa, Setembro 2014

Mundo de incertezas

Mundo de incertezas
Vivo num mundo que é só meu
Cheio de medos e incertezas
Por vezes sinto as pernas presas
Sinto que o medo me venceu
Vi um pássaro na rua
Tive receio de o seguir
A verdade nua e crua
Simples vontade de fugir
Com uma vida para viver
Perder tempo não é caminho
Será que me vou arrepender
De não seguir o passarinho?
Uma luz se fez então
O importante é caminhar
Ninguém te pode dar a mão
Quando recusas amar

Pedro Peixoto, Retiro do Losar, escrita livre a partir do poema Encontro, de Mark Neppo, 1 de Março 2014

por momentos

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Sigo por momentos o pássaro colorido que está à minha frente, maravilhando-me com as suas cores, a sua vivacidade, a sua alegria.

Parece que me quer transmitir alguma coisa especial…

Sorrio, olho para ele a rodopiar à minha volta e penso: este é um momento de pura beleza e de puro entendimento, de pura graça.

… e volto ao meu caminho, feliz.

Paula Laranjeira, Retiro de Losar, escrita livre a partir do poema Encontro, de Mark Neppo, 1 de Março 2014

Roda vida

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Roda vida sem parar
roda, roda, corre, corre
pé aqui, pé acolá
é p’ra lá que tu hás-de ir
ir e vir, ir e partir
partir daqui, para acolá
lá longe, onde será?
será melhor do que aqui?
quem saberá se não for lá
e a vida corre, corre
corre, corre sem parar
(Ana Margarida Ramalho)

A chávena de chá

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Quente!
estupidamente quente!
As minhas mãos sentiam o quanto estava quente
Que fazer?
Provar?
Talvez aguardar mais um pouco, ter paciência
Sim, paciência é uma grande virtude
Mas….virtude para quê?
Mais vale arriscar sem nada temer
Mas está tão quente!
Estão todos a olhar….
Arrisco, não arrisco?
Afinal o que quero é não me queimar, e estou preocupada com os outros?
O que pensam ao verem-me assim
Com as mãos prestes a largar tudo!?
prestes a deixar cair tudo pelo chão
partir a chávena de chá e varrê-la para a pá!
(Ana Margarida Ramalho)

O lápis

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Depois da escola, encontrei este lápis. De quem seria?

Quantas histórias teria escrito? Quantos projetos teria realizado? Quanto sonhos tinham partilhado com ele? Quem sabe os segredos das outras pessoas que ele escreveu.

Talvez tivesse saído do estojo, ou terá sido lá esquecido? Talvez procurasse um novo dono.

No final de contas, o lápis é um objeto que esconde vários segredos de muita gente.

 

 

Maria Ribeiro, 10 anos

workshop de escrita criativa para jovens