Os deuses sem face

O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia que tinha partido em peregrinação ao santuário dos deuses sem face. Eram assim chamados porque nunca ninguém lhes vira o rosto ou o pudera sequer imaginar, nunca ninguém soubera os seus nomes ou a sua história. Apenas se sabia que eram cinco, cinco como os dedos da mão, cinco como os cinco sentires, cinco como tocar, saborear, cheirar, ver e ouvir.

O primeiro deus era o deus das coisas breves, das sensações agrestes e suaves, do que podemos conhecer com a pele e com os poros, e os cabelos, o vento no cais, o espaço entre o ar e o corpo, a frieza da tua escuridão. Era o deus de embalar e afagar e de sermos outra vez crianças. Era o deus dos castores e dos colibris, do algodão e das cerejas.

O segundo deus era o deus dos odores e dos perfumes bravios, cheios, intensos, e também subtis, transparentes e rudes. Era o deus que nos fazia amar e tocar, que nos fazia recordar e chorar, que nos fazia rugir e recuar. Era um deus minucioso e contemplativo, um deus que nos intoxica de prazer e nos turva de luxúria e de querer. Era o deus dos elefantes e das baleias, do almíscar e da orquídea.

O terceiro deus era o deus dos sabores e dos prazeres, de tudo o que nos dá fome e sede, de todos os desejos, do que sonhamos e queremos. É o deus que nos rodeia quando estamos sentados à volta da fogueira numa noite escura, a festejar a comunhão com o coração e o riso. Era um deus folgazão e ciumento. Era o deus das aves do paraíso e das beringelas.

O quarto deus era o deus dos sons e da música, dos rugidos e da espuma, o deus bravio que galopa rochedos e o deus terno que afaga a pele estendida de um tambor depois do pôr-do-sol. Era um deus exigente e devotado, um deus que nos entontece, nos embriaga e nos adormece. Era o deus das borboletas e dos pavões.

O quinto deus era o deus das cores, das formas e das luzes. Um deus que nos surpreende e nos oferece todo o universo, que nos inunda de matizes e de construções, que nos enfeitiça e nos absorve. É o deus dos jogos e das nuvens douradas, das águias, dos tubarões e do peixe-espada. Conta-nos histórias de reis e cavaleiros, de ricos e pobres, de escuridão e de luz. Prende-nos nas cores do amanhecer e quebra-nos nas viagens das descobertas.

Como é que eles surgiram, ninguém sabe, apenas se diz que algures, numa dobra escondida na memória do tempo, algo se moveu. Criou ondas e fogos de artifício, criou êxtase, luz e cor. Algo se pôs em movimento, não se sabe o porquê, nem como e muito menos quando. E desse movimento surgiram os cinco deuses, todas as manifestações de risos e lágrimas, todos os afagos e todas as batalhas, toda a ignorância e toda a sabedoria. E ao longo de milhares de milhões de anos, e mais ainda, os deuses expandiram-se, gozaram, criaram, construiram, destruiram, até que, cansados, como uma criança depois de um dia de brincadeiras, concentraram todos os seus poderes num pequeno cristal que esconderam no mais fundo dos oceanos e deixaram o mundo dissolver-se.  E não se sabe quanto tempo esse cristal esteve no fundo dos mares. E era esse cristal que a sereia tinha encontrado e vinha trazer ao altar dos deuses sem face. Queria recordar-lhes a matéria de que todos os sonhos são feitos e suplicar-lhes mais uma gota, uma pequena gota de ilusão. E os deuses, despertos pelo som dos seus pés martirizados pelos seixos da praia, abriram o cristal e ofereceram-lhe uma gota do seu imenso poder, o perfume tímido da violeta, o sabor bravio de uma maçã verde, a doçura de uma pena branca e lisa, o som cavo e fundo de um búzio, a visão fugaz de uma estrela cadente. A gota deslizou suavemente pelos dedos da sereia.

 

Ferramentas utilizadas: escrita livre, escrita sensorial

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