O ponto de vista

Image

Um dos problemas da escrita dos novos autores ou de aspirantes a autor é o egocentrismo ou a subjetividade. É estarem, à partida, demasiado centrados em si, no que vivem ou sentem, ou, talvez ainda pior, no que viveram ou sentiram, no “seu” ponto de vista.

Na meditação, procuramos soltar, procuramos não estar completamente imersos na nossa subjetividade. Aprendemos a dar um passo atrás, e ao recuar, podemos ter uma visão menos míope, mais alargada, mais aberta, de tudo o que surge. Criamos um campo de possibilidades. Da mesma forma, para uma escrita mais liberta, é importante criar esse espaço, e mais do que isso, experimentar ver a realidade com outros olhos, com outro corpo, com outro sentir.

Literariamente, essa técnica pode assumir a forma de várias personagens que narram um acontecimento ou série de eventos, ou ainda, a adoção do ponto de vista de uma personagem pouco usual – um objeto inanimado, por exemplo.

E embora adotar outro ponto de vista possa ser refrescante e libertador, isso não impede que contemos o que queremos e quem somos – mas de uma forma mais rica, mais universal.

Autopsicografia

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

01.04.1931

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s