Listas

Lista-de-Compras-Supermercado

 

Uma lista parece à primeira vista o que há de menos literário, poético ou criativo neste mundo. Quando pensamos em listas pensamos em listas de compras, listas de tarefas, listas telefónicas. Mas na verdade as listas podem ser a própria centelha da criatividade em ação, como no método de “brainstorming”. Se nos queixamos que nos sentimos bloqueados, sem ideias, sem criatividade, uma das razões pode ser precisamente a de não exercermos o “músculo” da criatividade o suficiente. Fazer listas exercita o cérebro, dá uma estrutura ao nosso trabalho e, claro, impede que vão parar à gaveta do esquecimento tantas ideias que brotam a toda a hora e que mal têm a oportunidade de desabrochar, são afogadas em toneladas de pragmatismo. Uma lista permite-nos focar, canalizar, mas também deixar fluir e fazer nascer.

Podemos fazer listas de ideias, listas de projetos, lista de sonhos, listas de livros que gostaríamos de escrever, listas de coisas que gostaríamos de mudar e listas de formas de mudar essas coisas, listas de coisas que queremos manter e listas de formas de manter essas coisas… e listas de temas para listas!

Na escrita, quando usar esta técnica?

Antes de escrever, para planear o que vamos escrever;

Durante a escrita, se ficarmos bloqueados – podemos estruturar o que vamos fazer a seguir;

A qualquer momento, para incentivar a criatividade e encontrar temas e ideias novas.

Exemplo literário:

Águas de Março

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira

Cainá, candeia, é Matita Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira

É um mistério profundo,

é um queira ou não queira

É um vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo,

é conversa ribeira das águas de março,

é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra na atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão

É um regato, é uma fonte,

é um pedaço de pão É o fundo do poço

É o fim do caminho

No rosto um desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto

É um pingo, pingado, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando

É a lenha, é o dia, é o fim da picada

É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte, é um sapo, uma rã

É um Belo Horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração.

(Tom Jobim)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s