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fotografias a olharem o poeta.
Uns minutos de silêncio
a soprarem
o calor da tarde.
Gatos vadios
a descerem as escadas.
Sorri.
Folhas brancas
enchem uma mesa grande.
Num dos cantos rabiscado:
Agora continua a viver.

Sandra Costa Brás, Retiro de Losar, técnica poema escondido, 1 de Março de 2014

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No parque havia um velhote que era caçador, daqueles a sério, que antes de caçarem sonham com os animais. Andámos horas a pé e quando chegámos lá estava o fulano sentado. Eu pensei: “Já vi isto.” Ele estava numa esteira, com um facão a fazer uma zagaia. Não nos cumprimentou, não falou connosco. Só quando eu disse que era um contador de histórias, não ia dizer escritor, e que gostava de ouvir as dele, é que levantou os olhos e olhou para mim. Disse que no dia seguinte, às 4h, me levaria à gruta das hienas. Lá fui. Mostrou-me pegadas de animais, andámos assim toda a manhã. Depois almoçámos e perguntei-lhe se à noite podíamos fazer o mesmo para ver animais que só circulam à noite. Ele respondeu: “Você não percebeu nada. Sou cego, não vejo. Só vejo quando estou a caçar, e de noite não caço.” E eu lembrei-me que já tinha ouvido isto. Há uma frase minha no “Jesusalém”, dita por uma das personagens, um velho também, que diz: “Só vejo quando escrevo.”

Mia Couto

Genesis

That first green night of their dreaming, asleep beneath the Tree,

God said, “Let meanings move,” and there was poetry.

(naquela primeira noite verde do seu sonho, adormecido debaixo da Árvore, Deus disse “que os sentidos se movam” e a poesia assim foi)

Muriel Rukeyser, “Selected Poems”

“Breathe-in experience, breathe-out poetry”, Inspira-experiência, Expira-poesia escreveu no seu primeiro livro.

Foto: Helena Martins

Há pessoas que amam

Há pessoas que amam

Com os dedos todos sobre a mesa.

Aquecem o pão com o suor do rosto

E quando as perdemos estão sempre

Ao nosso lado.

Por enquanto não nos tocam:

A lua encontra o pão caiado que comemos

Enquanto o riso das promessas destila

Na solidão da erva.

Estas pessoas são o chão

Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos

E pôs um fruto negro no lugar do coração.

Estas pessoas são o chão

Que não precisa de voar.

Rui Costa

é estranho pensar que um olhar destes já não existe