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fotografias a olharem o poeta.
Uns minutos de silêncio
a soprarem
o calor da tarde.
Gatos vadios
a descerem as escadas.
Sorri.
Folhas brancas
enchem uma mesa grande.
Num dos cantos rabiscado:
Agora continua a viver.

Sandra Costa Brás, Retiro de Losar, técnica poema escondido, 1 de Março de 2014

o tic tac do relógio

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De manhã, ao acordar, ouço sempre aquele tic tac do relógio, a minha a mãe a apressar-me, a correria para encontrar a escova, enfim, o habitual. Penso que quero variar, talvez mudar, mas depois lembro-me que cresci com aquele tic tac, com a minha mãe a apressar-me e com a correria para encontrar a escova. Afinal são a minha infância.

Liz Ribeiro, 10 anos

retrato

 

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No café da Fnac a senhora de leggings e camisola com asas de morcego da H&M reserva o lugar na mesa com um livro e depois traz a bandeja com meia de leite, torrada de pão saloio e água das pedras, insistente na leitura do romance enquanto besunta os dedos na manteiga e depois, sim, há outra vida para além da barriga satisfeita de pão e da bebida quente no dia dos mortos.

Eu não consigo

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Está um fim de tarde maravilhoso. São quase 8h da noite e a praia está deserta. É mesmo assim que eu gosto!

Seria o cenário perfeito para um romance de sucesso, daqueles que já vão na 3ª ou 4ª edição.

O único problema é que eu não consigo escrever e quando digo não consigo é não consigo mesmo.

Vivo acompanhada de um monstrinho, a que eu trato com carinho, na intimidade, por mafarrico. Gosto mais do termo. Os 2 Rs dão-lhe muita força, o que o torna ainda mais maquiavélico.

Ele domina-me completamente, chegando a colar a ponta da minha caneta ao papel e não me deixando arrastá-la. Eu insisto, insisto, puxo os cabelos, roo as unhas e … nada, não sai nada.

O meu cérebro fica obtuso e só consigo ver o dedo grande do pé a que o diabo do mafarrico faz cócegas para me impedir de ter uma qualquer ideia, por pequenina que seja, a que os outros possam achar alguma graça.

Graça, como eu gostava de ser engraçada e criativa em lugar de sensaborona e chata!

E tudo por causa do dito monstrinho mafarrico a quem decidi chamar “eu não consigo”.

Acho que só um exorcismo o vai poder tirar de dentro do meu corpo, mas mesmo que venha o padre, ele vai agarrar-se às minhas entranhas, colar-se à minha pele e eu continuarei a gritar, não consigo, não consigo……

Para tornar as coisas ainda pior, o dito monstrinho tem 2 primos direitos que são como irmãos e, todos juntos, transformam a minha vida num verdadeiro inferno.

Na verdade, nem é bem um inferno porque, supostamente, ali há um calorzinho tremendo que nos faz mexer, numa tentativa de provocar um ventinho que nos refresque o corpo. No caso presente, nem calor nem frio, apenas monotonia.

E tudo isto porque os primos direitos do “não consigo” são o “inseguro” e o “envergonhado”.

Há uns dias, encontrei uma amiga de infância que me disse que tinha feito uma regressão, coisa que eu achava ser ligada à economia do nosso país que não faz mais senão regredir.

Mas não, não era essa regressão que ela tinha feito, mas uma daquelas sessões em que te mandam deitar e te começam a meter um saca rolhas pela alma abaixo até vomitares tudo aquilo que viveste desde que foste gerado e, há quem diga até, aquilo que fizeste nas tuas outras encarnações.

Olhei-a embasbacada e perguntei-me se, para entender este meu karma actual do “não consigo”, gostaria de saber que tinha sido um prepotente Napoleão ou um cruel nazi.

Mas enfim, se esse é o preço que tenho de pagar para me livrar dos 3 monstrinhos….seja.

Alguém dizia que olhar para trás faz doer o pescoço, mas eu não me importei com a dor de tanto o virar até aos 5 anos, para ver a minha irmã,  3 anos mais velha do que eu, em cima de um palco improvisado, declamando num tom melodramático que empolgava toda a plateia familiar.

E eu, ia-me encolhendo cada vez mais, reduzindo-me à minha insignificância de miúda incapaz de fazer qualquer gracinha, fosse recitar ou cantar a tia Anica do Loulé.

Quero falar mas as palavras que tenho na garganta não sabem sair e tornar-se independentes, sempre com aquele medo de que ninguém me ache a mínima piada.

E para nada me serve que a Bíblia Sagrada proclame ao longo das suas páginas, cerca de 365 vezes “ não tenhas medo”.

O medo vive comigo e faz-me companhia para todo o lado que eu vá.

Medo, medo de quê?

Pois bem, agora meus caros monstrinhos, chegou a hora da vingança. E a vingança, como se costuma dizer, serve-se fria.

Eu decidi, está decidido.

Se não podes vencer os teus inimigos, quer dizer os teus monstrinhos, junta-te a eles.

Tenho a certeza que vão ficar “lixados” para o resto das vossas vidas com a última novidade da ciência que me assenta como uma luva. É uma nova escola que vou passar a seguir. A escola da via negativa ou, para ser ainda mais “in” , vou passar a pertencer ao grupo dos pessimistas defensivos, ou seja, àqueles que reduziram as suas expectativas aos mínimos, usando a via negativa para atingir a felicidade.

Quando não se espera nada, tudo o que vier à rede é peixe.

E aqui aparecem vocês de novo a tentar embatucar-me perante o mundo e eu a borrifar-me para o facto, porque já nada me afecta. Não espero nada ou espero pouco e assim, sem ressentimentos contra os meus amigos monstros, concluo que a única forma de não vos aturar, seria não ter nascido, o que, obviamente, não é uma alternativa que me tivesse agradado.

Afinal, vale a pena viver, com ou sem monstros.

Ana Moreira da Silva, tema “os monstros inimigos da energia criativa”

Todos precisamos de beleza… nem que seja uma vez por semana

“Há sempre flores para quem as quer ver” Henri Matisse

Temos de alimentar o nosso artista interior, ou ele morre à fome e à sede. Temos de alimentá-lo com coisas belas e frágeis, percursos e inspirações, atenção e quietude.

Uma vez por semana sou recebida num espaço de criatividade para uma sessão de heArt Journaling. É a minha forma de me dar um tempo e um espaço para estar com “o meu artista interior”… e com ferramentas simples, com pouco mais que lápis de cor, objetos, papéis e cola, traço um percurso entre a memória e o sonho.  A minha guia chama-se Deidre Matthee, um ser resplandecente na paisagem por vezes cinzenta do Porto.

Hoje, um dos projetos foi traçar um mapa de intenções.

É bom pôr as coisas preto no branco… ou no verde, no amarelo, no lilás.

Para a quem quiser conhecer, vamos ter a Deidre no Centro Budista do Porto para um workshop sob o tema da mudança e das estações. Domingo dia 27 de Outubro.

Outras ideias? É bom alimentar o nosso artista. Nem que seja uma vez por semana.