O mundo é mágico

O mundo é mágico

Ao sair do estúdio, pus os óculos mágicos e o mundo mudou. Estava sol e começou a cair uma chuva fininha que não durou muito. Pus o meu capuz e senti-me protegida e disfarçada. Passei por uma fada sentada num parque de estacionamento a desenhar e descobri os sapatos da Cinderela ao virar de uma esquina. Entrei no Travellers Cafe e preparei-me para uma viagem de sabores – um wrap de queijo feta e rúcula, um sumo de manga e banana – não digo que fosse a melhor das combinações, mas levou-me a sítios distantes e quentes. Quanto às batatas fritas, contudo, não havia magia que as salvasse. Mesmo assim recebi uma jóia – um dos três desejos que tinha visto nessa manhã. Um caminho abriu-se à minha frente e um bando de pássaros, silhuetas cinzentas no céu azul claro, passaram em voo rasante. Abriu-se um buraco no chão e descobri um subterrâneo que me transportou através de prados de flores brancas silvestres. Um símbolo roxo apontou-me o caminho para casa. O caminho de volta àqueles que amo.

Obrigada Deidre, pela foto e uma manhã de viagens e magia. E a magia está mesmo no nosso olhar.

Resposta

Resposta

Para quê seguir o pássaro ? Se ele leva o seu caminho talvez não sabendo para onde vai! ou então procurando o seu ninho onde o esperam os seus filhotes ou ir poisando de flor em flor.
O meu caminho está em frente, segui-o como tinha pensado, não mudo de trajetória, porque ela é essa mesmo certa e definitiva como pensei.

Tina Aurélio, Retiro do Losar, escrita livre a partir do poema Encontro, de Mark Neppo, 1 de Março 2014

por momentos

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Sigo por momentos o pássaro colorido que está à minha frente, maravilhando-me com as suas cores, a sua vivacidade, a sua alegria.

Parece que me quer transmitir alguma coisa especial…

Sorrio, olho para ele a rodopiar à minha volta e penso: este é um momento de pura beleza e de puro entendimento, de pura graça.

… e volto ao meu caminho, feliz.

Paula Laranjeira, Retiro de Losar, escrita livre a partir do poema Encontro, de Mark Neppo, 1 de Março 2014

o tic tac do relógio

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De manhã, ao acordar, ouço sempre aquele tic tac do relógio, a minha a mãe a apressar-me, a correria para encontrar a escova, enfim, o habitual. Penso que quero variar, talvez mudar, mas depois lembro-me que cresci com aquele tic tac, com a minha mãe a apressar-me e com a correria para encontrar a escova. Afinal são a minha infância.

Liz Ribeiro, 10 anos

Eu não consigo

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Está um fim de tarde maravilhoso. São quase 8h da noite e a praia está deserta. É mesmo assim que eu gosto!

Seria o cenário perfeito para um romance de sucesso, daqueles que já vão na 3ª ou 4ª edição.

O único problema é que eu não consigo escrever e quando digo não consigo é não consigo mesmo.

Vivo acompanhada de um monstrinho, a que eu trato com carinho, na intimidade, por mafarrico. Gosto mais do termo. Os 2 Rs dão-lhe muita força, o que o torna ainda mais maquiavélico.

Ele domina-me completamente, chegando a colar a ponta da minha caneta ao papel e não me deixando arrastá-la. Eu insisto, insisto, puxo os cabelos, roo as unhas e … nada, não sai nada.

O meu cérebro fica obtuso e só consigo ver o dedo grande do pé a que o diabo do mafarrico faz cócegas para me impedir de ter uma qualquer ideia, por pequenina que seja, a que os outros possam achar alguma graça.

Graça, como eu gostava de ser engraçada e criativa em lugar de sensaborona e chata!

E tudo por causa do dito monstrinho mafarrico a quem decidi chamar “eu não consigo”.

Acho que só um exorcismo o vai poder tirar de dentro do meu corpo, mas mesmo que venha o padre, ele vai agarrar-se às minhas entranhas, colar-se à minha pele e eu continuarei a gritar, não consigo, não consigo……

Para tornar as coisas ainda pior, o dito monstrinho tem 2 primos direitos que são como irmãos e, todos juntos, transformam a minha vida num verdadeiro inferno.

Na verdade, nem é bem um inferno porque, supostamente, ali há um calorzinho tremendo que nos faz mexer, numa tentativa de provocar um ventinho que nos refresque o corpo. No caso presente, nem calor nem frio, apenas monotonia.

E tudo isto porque os primos direitos do “não consigo” são o “inseguro” e o “envergonhado”.

Há uns dias, encontrei uma amiga de infância que me disse que tinha feito uma regressão, coisa que eu achava ser ligada à economia do nosso país que não faz mais senão regredir.

Mas não, não era essa regressão que ela tinha feito, mas uma daquelas sessões em que te mandam deitar e te começam a meter um saca rolhas pela alma abaixo até vomitares tudo aquilo que viveste desde que foste gerado e, há quem diga até, aquilo que fizeste nas tuas outras encarnações.

Olhei-a embasbacada e perguntei-me se, para entender este meu karma actual do “não consigo”, gostaria de saber que tinha sido um prepotente Napoleão ou um cruel nazi.

Mas enfim, se esse é o preço que tenho de pagar para me livrar dos 3 monstrinhos….seja.

Alguém dizia que olhar para trás faz doer o pescoço, mas eu não me importei com a dor de tanto o virar até aos 5 anos, para ver a minha irmã,  3 anos mais velha do que eu, em cima de um palco improvisado, declamando num tom melodramático que empolgava toda a plateia familiar.

E eu, ia-me encolhendo cada vez mais, reduzindo-me à minha insignificância de miúda incapaz de fazer qualquer gracinha, fosse recitar ou cantar a tia Anica do Loulé.

Quero falar mas as palavras que tenho na garganta não sabem sair e tornar-se independentes, sempre com aquele medo de que ninguém me ache a mínima piada.

E para nada me serve que a Bíblia Sagrada proclame ao longo das suas páginas, cerca de 365 vezes “ não tenhas medo”.

O medo vive comigo e faz-me companhia para todo o lado que eu vá.

Medo, medo de quê?

Pois bem, agora meus caros monstrinhos, chegou a hora da vingança. E a vingança, como se costuma dizer, serve-se fria.

Eu decidi, está decidido.

Se não podes vencer os teus inimigos, quer dizer os teus monstrinhos, junta-te a eles.

Tenho a certeza que vão ficar “lixados” para o resto das vossas vidas com a última novidade da ciência que me assenta como uma luva. É uma nova escola que vou passar a seguir. A escola da via negativa ou, para ser ainda mais “in” , vou passar a pertencer ao grupo dos pessimistas defensivos, ou seja, àqueles que reduziram as suas expectativas aos mínimos, usando a via negativa para atingir a felicidade.

Quando não se espera nada, tudo o que vier à rede é peixe.

E aqui aparecem vocês de novo a tentar embatucar-me perante o mundo e eu a borrifar-me para o facto, porque já nada me afecta. Não espero nada ou espero pouco e assim, sem ressentimentos contra os meus amigos monstros, concluo que a única forma de não vos aturar, seria não ter nascido, o que, obviamente, não é uma alternativa que me tivesse agradado.

Afinal, vale a pena viver, com ou sem monstros.

Ana Moreira da Silva, tema “os monstros inimigos da energia criativa”