Eu não consigo

dolls

Está um fim de tarde maravilhoso. São quase 8h da noite e a praia está deserta. É mesmo assim que eu gosto!

Seria o cenário perfeito para um romance de sucesso, daqueles que já vão na 3ª ou 4ª edição.

O único problema é que eu não consigo escrever e quando digo não consigo é não consigo mesmo.

Vivo acompanhada de um monstrinho, a que eu trato com carinho, na intimidade, por mafarrico. Gosto mais do termo. Os 2 Rs dão-lhe muita força, o que o torna ainda mais maquiavélico.

Ele domina-me completamente, chegando a colar a ponta da minha caneta ao papel e não me deixando arrastá-la. Eu insisto, insisto, puxo os cabelos, roo as unhas e … nada, não sai nada.

O meu cérebro fica obtuso e só consigo ver o dedo grande do pé a que o diabo do mafarrico faz cócegas para me impedir de ter uma qualquer ideia, por pequenina que seja, a que os outros possam achar alguma graça.

Graça, como eu gostava de ser engraçada e criativa em lugar de sensaborona e chata!

E tudo por causa do dito monstrinho mafarrico a quem decidi chamar “eu não consigo”.

Acho que só um exorcismo o vai poder tirar de dentro do meu corpo, mas mesmo que venha o padre, ele vai agarrar-se às minhas entranhas, colar-se à minha pele e eu continuarei a gritar, não consigo, não consigo……

Para tornar as coisas ainda pior, o dito monstrinho tem 2 primos direitos que são como irmãos e, todos juntos, transformam a minha vida num verdadeiro inferno.

Na verdade, nem é bem um inferno porque, supostamente, ali há um calorzinho tremendo que nos faz mexer, numa tentativa de provocar um ventinho que nos refresque o corpo. No caso presente, nem calor nem frio, apenas monotonia.

E tudo isto porque os primos direitos do “não consigo” são o “inseguro” e o “envergonhado”.

Há uns dias, encontrei uma amiga de infância que me disse que tinha feito uma regressão, coisa que eu achava ser ligada à economia do nosso país que não faz mais senão regredir.

Mas não, não era essa regressão que ela tinha feito, mas uma daquelas sessões em que te mandam deitar e te começam a meter um saca rolhas pela alma abaixo até vomitares tudo aquilo que viveste desde que foste gerado e, há quem diga até, aquilo que fizeste nas tuas outras encarnações.

Olhei-a embasbacada e perguntei-me se, para entender este meu karma actual do “não consigo”, gostaria de saber que tinha sido um prepotente Napoleão ou um cruel nazi.

Mas enfim, se esse é o preço que tenho de pagar para me livrar dos 3 monstrinhos….seja.

Alguém dizia que olhar para trás faz doer o pescoço, mas eu não me importei com a dor de tanto o virar até aos 5 anos, para ver a minha irmã,  3 anos mais velha do que eu, em cima de um palco improvisado, declamando num tom melodramático que empolgava toda a plateia familiar.

E eu, ia-me encolhendo cada vez mais, reduzindo-me à minha insignificância de miúda incapaz de fazer qualquer gracinha, fosse recitar ou cantar a tia Anica do Loulé.

Quero falar mas as palavras que tenho na garganta não sabem sair e tornar-se independentes, sempre com aquele medo de que ninguém me ache a mínima piada.

E para nada me serve que a Bíblia Sagrada proclame ao longo das suas páginas, cerca de 365 vezes “ não tenhas medo”.

O medo vive comigo e faz-me companhia para todo o lado que eu vá.

Medo, medo de quê?

Pois bem, agora meus caros monstrinhos, chegou a hora da vingança. E a vingança, como se costuma dizer, serve-se fria.

Eu decidi, está decidido.

Se não podes vencer os teus inimigos, quer dizer os teus monstrinhos, junta-te a eles.

Tenho a certeza que vão ficar “lixados” para o resto das vossas vidas com a última novidade da ciência que me assenta como uma luva. É uma nova escola que vou passar a seguir. A escola da via negativa ou, para ser ainda mais “in” , vou passar a pertencer ao grupo dos pessimistas defensivos, ou seja, àqueles que reduziram as suas expectativas aos mínimos, usando a via negativa para atingir a felicidade.

Quando não se espera nada, tudo o que vier à rede é peixe.

E aqui aparecem vocês de novo a tentar embatucar-me perante o mundo e eu a borrifar-me para o facto, porque já nada me afecta. Não espero nada ou espero pouco e assim, sem ressentimentos contra os meus amigos monstros, concluo que a única forma de não vos aturar, seria não ter nascido, o que, obviamente, não é uma alternativa que me tivesse agradado.

Afinal, vale a pena viver, com ou sem monstros.

Ana Moreira da Silva, tema “os monstros inimigos da energia criativa”

One thought on “Eu não consigo

  1. Acabo de ler o “Eu não consigo”, onde parei na passagem pelos textos da Escrita Criativa. Era essa a frase mais insistente no meu cérebro, e que eu verbalizava frequentemente durante toda a minha adolescência, mais tarde mesmo, e que eu sentia definir-me, abranger-me inteira! Não se estranha, pois, que eu tenha ido espreitar. Ao chegar ao fim, tinha o mesmo sorriso que, agora, passados muitos anos, tenho relativamente ao “eu” de então – melhor, à pessoa que assim sentia : misto de ternura, de esperança e de alegria. E olho, comovida, para trás – tanto caminho…

    Obrigada, Ana, pelo seu texto e por isto que, sem saber, me deu.

    E parabéns!… Já viu em que se transformou o olhar acolhedor sobre o seu sentimento?Somos paradoxais, não é? Um texto tão bonito, cheio de justeza e de carinho pelos medos que, afinal, todos sentimos…(uns mais do que outros, medos e pessoas, é verdade…). Só sabemos o que está para além das portas quando temos a coragem de as abrir, não é?! ( e esta é mais uma lição para mim, neste momento em que estou a precisar de abrir portas, e tenho medo…)

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