Os guardadores de sementes

Há muitos, milhares de anos atrás, havia os guardadores de sementes. Ninguém sabe como começou, ou quem começou, mas talvez, em alguma parte do mundo, várias pessoas sentiram a mesma urgência, ou seguiram o mesmo sonho, o sonho de salvar o futuro e para salvar o futuro, o mais importante, era preservar as plantas. E assim alguns começaram, devagar, quase em segredo. A guardar sementes, a passá-las depois uns aos outros, para que a maior variedade possível fosse guardada intacta, tal como os nossos antepassados as tinham cultivado, com a mesma beleza, o mesmo toque e riqueza e sabor. E não como os laboratórios as estavam a manipular, não essas sementes. Guardavam as sementes antigas, aquelas que recordavam da infância, que sabiam era o verdadeiro sabor do morango e do tomate e da acelga. Era como um movimento subterrâneo, como uma sociedade secreta. Excepto que todos se sabiam reconhecer. Não que fossem diferentes, ou tivessem algum sinal distintivo, mas sabiam-se reconhecer. Mesmo os que estavam adormecidos, e um dia acordavam e olhavam as flores e cheiravam-nas e sabiam que tinham de as proteger. Guardar a alegria estonteante dos amores-perfeitos, a gravidade do gladíolo, a sabedoria dos cedros. E depois um dia a terra acordou em silêncio. Um enorme silêncio que durou muitos séculos. E do silêncio surgiu um zumbido e o zumbido fervilhou. E as sementes despertaram. E desdobraram-se curiosas e depressa procuraram a luz e alimentaram-se da terra molhada e brotaram vaidosas, entre risinhos e gracejos. Levaram algum tempo ainda para se admirarem e entrelaçarem. Algumas eram atrevidas e graciosas, outras mais prosaicas e rebolonas. E ainda outras, esguias e serenas, eram rodeadas do tremeluzir de sombras frescas. Tinham formas humanas, mas também atributos vegetais, como cabelos de folhas esvoaçantes e pernas que conservavam a memória das raízes. Não precisavam do vocabulário dos tempos idos, pois o seu mundo era feito de memórias, de sons e de novas sensações rapidamente partilhadas entre todos. E todos recordavam os antepassados guardadores de sementes, que para as preservar as tinham conservado na sua saliva, juntando-as aos seu ADN.

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