Os mensageiros

 

Comecei esta semana uma prática xamânica de pedir uma mensagem/ um mensageiro cada manhã. Ao sair de casa, no meu curto caminho até à paragem do autocarro, estou atenta a algo que para mim faça sentido e que possa ser encarado como uma mensagem “de sabedoria” para o meu dia. Por incrível que pareça… tem sido significativo. Comecei na quarta-feira. Ao sair para a rua, tudo parece o mesmo, sem nada de “especial”, e vejo uma gaivota a voar para a minha direita. É verdade que as gaivotas agora estão instaladas na cidade, mas por qualquer razão fico atenta. Penso que para que esse voo seja marcante, vou ter de o ver 3 vezes. Uns metros depois, vejo a gaivota a voar, mas dirigindo-se a sul. Ok, segunda vez. Continuo o meu percurso e chego à paragem do autocarro. Espero. Felizmente, não muito, o autocarro está a chegar. E a gaivota passa uma terceira vez. Qual a mensagem? Para mim esta questão de voar tem estado muito presente ultimamente como mensagem de libertação. É espantoso pensar que quanto mais nos debatemos, mais nos atolamos. Somos prisioneiros de nós mesmos, pois como diz a história zen, ninguém nos prende. Durante o dia, as mesmas histórias de sempre, em que nos enredamos e em que parece não haver saída. Mas talvez, sim, pode ser, há outras formas, outras construções, outras escolhas.

Ontem fui dar uma volta maior, pois tinha tempo e apetecia-me usufruir da manhã. Nada de especial me prendeu a atenção. Até que ao chegar perto da paragem onde desta vez ia apanhar o autocarro, vi uma pomba morta num canto. Pensei: se é esta a mensagem para o meu dia, bonjour l’angoisse, que depressiva! Viro a esquina… e uma pomba acaba de poisar no passeio, vibrante e esvoaçante. O contraste com a imagem anterior é flagrante e não posso deixar de pensar que é uma mensagem poderosa. Algo morre. Algo está vivo. A direção é clara. Apesar disso, uma história do passado ocupou-me toda a manhã, algo supostamente morto. Não tenho mais nada a fazer com essa história e no entanto vejo-a e revejo-a, tudo repassa novamente, e encontro até continuações. Mas está morto. Tempo para voltar ao que está aqui. Ao que está vivo.

Hoje, o mesmo cenário ao sair de casa, nada de especial se passa, não sou surpreendida por um pássaro especial, por uma árvore de contornos diferentes nem por uma planta de cheiro intenso. Até chegar perto da paragem. Vejo uma carteira de mulher, com círculos cravejados, que  fazem lembrar a representação do sol e cuja configuração também se assemelha a um mandala que coloquei no Pinterest. Pergunto-me se esta imagem será significativa e de que forma, e ao erguer o olhar, o sol espreita por entre as nuvens. Continuo o meu caminho a pensar que o sol a espreitar entre nuvens no céu não é nada de muito extraordinário – e olho novamente, e só um céu compactamente cinzento me olhou de volta. Outra imagem significativa para mim. Tenho falado nos meus workshops da imagem do nosso espírito enquanto o céu vasto e imenso, onde o sol brilha, mesmo para além das nuvens, fortuitas, passageiras, eternamente mutáveis e não sólidas.

A escrita é um processo de “sim”, tem uma voz, imagens e narrativas. Para os escritores, sobretudo se principiantes, talvez a maior dificuldade esteja em confiar no processo, largar, abrir assas, confiar que escrever não é um beco sem saída, pois o espírito/a intuição/a criatividade não tem limites. É o céu imenso onde brilha o sol (ou para outros, o astro lua), mesmo que escondido para além da nossa camada nebulosa de confusões, dúvidas, inseguranças e medos. Queremos confiar, mas também somos extremamente cautelosos, queremos abrir-nos para as mensagens da vida e acreditar que estão lá, todos os dias, no caminho de casa para o autocarro, cinco minutos para receber “inspiração divina”, mas desconfiamos, talvez hoje não, talvez hoje falhe, ou eu não veja, ou não haja nada para ver e isto seja mais uma daquelas histórias, mais uma ilusão. Sim, é verdade, é uma história, mas por isso mesmo pode assumir contornos inesperados. Pode ser mágico. Só temos de aceitar a imensa liberdade do espaço aberto à nossa frente, fresco e fecundo, abrir as asas e lançar-nos do alto. Confiar que o imenso espaço nos sustém e se abre a nós. É disso que é feito.

2 thoughts on “Os mensageiros

  1. Margarida: li atentamente o seu texto; achei engraçado porque às vezes no meu dia-a-dia tenho a impressão de que certas coisas ou cenas com que me deparo querem deixar-me uma mensagem e não as presenciei, aquelas, e não outras, por acaso.
    Fazem ou irão fazer sentido para mim, para a minha experiência (milagre de vida) quotidiana.

    Gostei muito.

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