Duarte

Texto de Pedro Ferreira, autor residente no Cabaret do Marquês – aqui, autor convidado:)

Cláudia já saía com o seu namorado Duarte há alguns meses. Ela tinha uma escova de dentes no apartamento dele, mas não as chaves de casa. Duarte Trigo é português e após algumas dificuldades durante os primeiros tempos, conseguiu vencer naquela cidade do nordeste brasileiro. Portugal tinha ficado para trás há quatro anos e ele prosperou com a abertura da mais badalada casa nocturna da cidade, frequentada pelos filhos da elite local. O estabelecimento era detido em regime de sociedade com Francesco, um italiano oriundo da Calábria. Progressivamente, Duarte foi ficando influente e conhecido de todos. De facto, mal se podia olhar para as patéticas colunas sociais da região, sem ver o seu rosto estampado na companhia de outros empresários e alguns políticos.

O que ele estava a fazer com ela era um pouco incerto. Ela era cerca de doze anos mais nova que Duarte e completamente desconhecida. Porém, trabalhava em publicidade, facto que o deixava curioso e entendiam-se muito bem. Apesar de ele deixar claro que não queria – e não iria – comprometer-se. Duarte era divertido, culto e exalava um charme enigmático. Ela tinha vinte e cinco anos e estava aberta a qualquer coisa.

Naquela noite, Cláudia ficou de se encontrar com Duarte no seu bar, localizado no exclusivo bairro de Petrópolis. Este era o único pormenor de que ela não gostava na relação. Apesar de ele não ficar até muito tarde, era um local pouco propício para conversas e eram constantemente interrompidos por desconhecidos que insistiam em cumprimentá-lo ou pequenos grupos de mulheres que se exibiam para ele.

No entanto, naquela noite, Duarte dedicou um pouco mais de atenção à sua parceira. Bebiam champagne numa área mais reservada e ele acariciava-lhe com delicadeza as costas, evidenciadas por um sensual decote do vestido preto, que Cláudia tinha escolhido para aquela noite. Eles contemplavam as pessoas que se aglomeravam junto ao bar principal, localizado no piso inferior. Duarte perguntou-lhe o que pretendia fazer mais tarde.

– Bem, nós poderíamos contratar uma prostituta – disse a Cláudia, querendo excitá-lo.

Eles mantinham conversas sobre esse assunto há semanas. Ela confessou que gostaria de sair com uma mulher e ele disse que sempre tinha tido a fantasia de partilhar a companhia de duas mulheres na cama. Eles não eram diferentes de ninguém em nada. Para homens e mulheres, o sexo a três é como o Monte Everest da intimidade de um casal – muitos gostariam de testá-lo e, se não querem, querem saber como funciona. Uma evidente confusão entre o que é erótico e o que se poderá tornar excessivo.

Cláudia também estava interessada por outras razões. Duarte afirmava que não conseguiria ser fiel e ela imaginou que se eles traíssem o seu relacionamento juntos não seria realmente uma traição. Ela nunca tinha pensado que um dia viria a contratar uma prostituta, mas isso permitia-lhes evitar solicitações constrangedoras junto de amigos comuns. Contudo, ela tinha perfeita noção que este tipo de fantasias funciona em espiral crescente e provavelmente as coisas não ficariam por ali.

Como era de se imaginar, Duarte ficou tentado com a sugestão.

– Não é uma má ideia – disse ele, com um sorriso malicioso.

Apesar de ela não estar muito segura se estaria disposta a fazer o que havia sugerido, ele estava tão empolgado que já era tarde demais para mudar de ideias. Após saírem do bar, aceleraram rumo ao apartamento dele, no Tirol. Duarte começou a pesquisar acompanhantes na internet enquanto Cláudia procurava nos classificados dos jornais. No final de uma das páginas, ela encontrou um anúncio de acompanhantes de luxo. Ele ligou de imediato e pediu uma loira “com muita experiência com mulheres”. O preço era 500 reais por hora.

– Nossa! O aluguel do apartamento que divido com minha amiga são 500 reais – murmurou Cláudia entredentes.

Duarte forneceu as informações do cartão de crédito e o seu nome verdadeiro para a pessoa que estava do outro lado da linha. Cláudia ficou incrédula. Ele era uma pessoa conhecida, aquele sotaque era inconfundível mas agia imprudentemente numa cidade conservadora, onde os estrangeiros residentes eram desaprovados com facilidade. Mas Duarte não se importava. Era como se estivesse a pedir uma pizza por telefone. A mulher na outra ponta disse qualquer coisa. Duarte sorriu, desviando o olhar para a sua namorada.

– Fico feliz por saber que sou tão popular – disse Duarte, para a agente das acompanhantes.

Cláudia questionava se a mulher iria espalhar a história para algum colunista social, mas guardou o pensamento para si mesma.

Tinha chegado a hora de se prepararem. Foram para o chuveiro; parecia o mais educado a fazer. Cláudia desejava ter colocado uma lingerie mais provocante. Vestiram roupões. O duche tinha diminuído o efeito da bebida, o que não era necessariamente bom. Duarte acendeu um cigarro e penteou os cabelos com os dedos. Ele abriu uma garrafa de vinho do Porto e colocou um CD dos Massive Attack na aparelhagem sonora. Cláudia aproveitou para diminuir a luminosidade da sala.

Subitamente, o porteiro ligou para o apartamento, para anunciar a chegada da visitante. Cláudia ainda pensou que teria sido mais sensato fazer este programa num motel, ao invés de receberem uma prostituta em casa. Era uma exposição de intimidade bastante arriscada. Ouviu-se uma leve batida na porta. Cláudia sentiu o sangue congelar nas veias, enquanto Duarte deixava a loira oxigenada entrar. Ela aparentava ter perto de trinta anos e ostentava um olhar felino. Tinha seios volumosos mas Cláudia era mais bonita. “Óptimo” – pensou ela para com os seus botões.

Ofereceram-lhe uma bebida e conversaram durante breves minutos, sentados nos sofás da sala. Logo depois, dirigiram-se para o quarto onde Duarte tinha acendido algumas velas com intuito de criar uma atmosfera sensual.

A coisa aconteceu da maneira que se imagina que deve ser. Ele disse para a prostituta que Cláudia nunca tinha estado com uma mulher e pede que ela beije a sua parceira.

– Quero ver – sibilou ele.

É curioso pensar que os diálogos dos filmes pornográficos são estúpidos e, depois, lá estamos nós num filme para adultos na vida real a dizer as mesmas idiotices.

Uma hora e meia depois, a loira levantou-se da cama e saiu. Charlie Sheen sabia o que falava quando disse que não paga a uma prostituta apenas pelo sexo, mas também para que ela se vá embora. Cláudia já tinha ouvido ópera em Milão, os sinos das igrejas parisienses ao amanhecer, mas o som mais doce que escutou foi daquela porta a bater, atrás daquela mulher.

Na manhã seguinte, Duarte levantou-se cedo porque iria ter uma reunião importante com o gerente do banco. Cláudia observou-o da cama e tentou imaginar se a loira iria perceber quem ele era e talvez aproveitar-se da situação.

Quando Cláudia chegou à agência de publicidade onde trabalhava, um colega do departamento criativo perguntou-lhe como tinha sido o serão.

– Legal – disse ela, esboçando um sorriso retorcido.

Ela imaginou que a noite anterior seria apenas o início de um longo e perigoso jogo de contornos perversos. Imediatamente, tentou afastar da sua mente os pensamentos sombrios que ameaçavam atormentá-la.

 

 

A história continua no cabaret😉

2 thoughts on “Duarte

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