O casaco

A minha sócia, embora bem mais nova do que eu, tinha sem dúvida muito mais experiência no terreno. Veio dizer-me que o casal da mesa do fundo tinha vindo jantar numa “blind date”. Observei-os por uns instantes: eram mais baixos do que a média dos belgas, loiros, de pele clara e roliços. Quase quarentões. Pareciam estar bem um para o outro. Havia outro casal na sala, obviamente casados ou a viverem juntos, trintões, um aspeto mais mediterrânico, mais altos e encorpados, talvez italianos, há muitos italianos na Bélgica. A noite decorria calma. Estava frio. De passagem, reparei nos casacos do bengaleiro da entrada. Curiosamente, os casacos das duas senhoras eram iguais, um modelo da Evam, talvez, compridos, quentes e castanhos.  O casal “italiano” saiu mais cedo. Não comeram sobremesa. Estavam com pressa.

Quando finalmente o casalzinho “blind date” se levantou para sair, a senhora vestiu o casaco que tinha deixado no bengaleiro e daí a segundos percebeu que não era o dela. Este era um pouco maior, embora do mesmo modelo e até da mesma cor… e, sobretudo, não tinha as chaves que tinha trazido no bolso. A única explicação era que a cliente que tinha saído anteriormente tinha trocado de casacos. Não tínhamos evidentemente o contato do casal que saíra mais cedo e supunhamos que quando dessem pela troca, nos telefonariam, mas não tínhamos como os contatar. A senhora mostrava-se cada vez mais preocupada. Ela era florista e as chaves que trazia no bolso do casaco eram da loja, que por sua vez dava acesso ao apartamento em que vivia. Ou seja, sem as chaves não podia entrar em casa. E os parentes mais próximos, onde ela poderia ir passar a noite, viviam mesmo assim afastados. Enquanto ela ficava cada vez mais agitada e preocupada, eu tentava encontrar uma saída, que obviamente não tinha. O acompanhante dizia que se arranjaria uma solução, a senhora não ficaria na rua. Eu cada vez mais preocupada, pedia desculpa, je suis désolée, não sabia o que dizer, até que parei para o olhar. Por trás das palavras de circunstância que repetia, “não se preocupem, arranjaremos uma solução”, os olhos dele sorriam de tal forma que os lábios não conseguiam permanecer sérios mesmo que quisesse. Relaxei.

Ainda antes de fecharmos o restaurante recebemos um telefonema do casal italiano, tinham ido ao cinema e só aí a mulher se tinha apercebido da troca dos casacos ao descobrir as chaves no bolso, embora já antes tivesse sentido que era um pouco apertado. Passariam no dia seguinte para o devolver.

Um ano depois, o casal “blind date” jantava no nosso restaurante. Ternos e cúmplices, estavam ostensivamente a comemorar a data.

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