Telefonema

Um quarto de mansarda, prateleiras com livros e algumas recordações de viagem, fotografias a preto e branco da Inês e malas cor de savana prontas a partir… Cinzeiros cheios de beatas, garrafas de whisky vazias. Um cheiro desgastado de álcool, tabaco e de homem. Estavas pronto para sair. Adormeceste à espera do telefonema. Tinhas tomado um duche, tinhas feito a barba, tinhas penteado os cabelos com os dedos em frente ao espelho. Os cabelos fartos e escuros e o teu sorriso sedutor ainda te davam um ar de mau rapaz q.b., acentuado pelo brinco na orelha e os fios no pescoço. Claro, a barriguinha confortável não condizia, mas fazia-te parecer menos perigoso… excepto quando os teus olhos quase pretos fugiam à deriva, pareciam ver outros horizontes, embora provavelmente apenas estivessem à procura de uma saída. Repórter, fugitivo e mentiroso crónico, poderias ter colocado na tua carteira profissional.

Acordaste com o toque do telemóvel. Pegaste nele, levantaste-te e esperaste para a voz não sair empastada.

 

– Sim, Marta?

– Não, sou eu, pai, estou a usar o telemóvel da mãe. Olha, já chegamos, a viagem correu muito bem.

– Sim? Que horas são aí?

– Quase meia-noite.

– Como está o tempo?

– Frio. E aí?

– Continua bom tempo.

– Estás bem, pai?

– Sim, estou ótimo. Amanhã parto para a Madeira em trabalho.

– Vê lá se te portas bem. Não saíste hoje, pois não?

– Não, fiquei em casa.

– Portas-te bem?

– Claro, não te preocupes. E tu, tem juízo!

– Tenho sempre juízo. Vou desligar, depois falamos.

– Beijinhos.

– Beijinhos.

Mantiveste o telemóvel no ouvido como se quisesses dizer mais alguma coisa. Ela desligara. Ficaste alguns minutos parado. Pousaste finalmente o telemóvel, vestiste o blusão de couro. Verificaste se tinhas as chaves e a carteira. Desceste as escadas. Pegaste no capacete que estava no hall de entrada. Saíste pela porta de ligação com a garagem. Puseste a moto em andamento enquanto a porta se abria. Não sabias para onde ias. Só não querias pensar em nada.

 

Produção de texto tendo como base o cenário (a partir da fotografia) para chegar à personagem. Exercício concebido por Pedro Ferreira.

 

2 thoughts on “Telefonema

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