Um dos desenhos feitos a canivete

Um dos desenhos feitos a canivete na porta do urinol* fizeste-o depois da alucinação do instante maduro quando sobes as escadas trôpego e te sentas no último degrau, planando sobre a circulação dos pombos que injetam solidões ferozes na praça da câmara, foste ao bar dos anzóis, cobiçaste o copo e o desleixo, prendeste-te na conversa da rapariga de vestido verde, perdeste, sincero, a oportunidade de te curvares sobre ela, de a prenderes e furtares, fugiste-a, viste-te num filme manhoso, sem autor, querias voltar atrás, mas a noite era uma amante infiel, deixou-te no início dos teus pés incongruentes. Querias mostrar o que vales, dizias, couro negro e na pele agarrado um resto da viagem ao sul, lembranças do sal e das noites, e das estrelas a dançar na roda dos suores. Inclinaste-te. As estrelas, onde estão as estrelas a piscar? Não há céu negro, não há chão baço. Se pudesses, sim, equilibrar-te naquela corda que te liga ao outro lado, o outro lado do penhasco e do sonho, atravessar para o outro lado, querias o sul das ondas frescas e das lembranças de tudo o que poderias ter sido. Mas não foi assim.

imagem: porta de WC @ Café Lisboa em Valencia

*verso de Al Berto

 

mais um exercício escrito no café Boémia😉

One thought on “Um dos desenhos feitos a canivete

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s