Coração de pássaro – 2

Sentiu-se confuso, tinha uma ideia vaga de estar sentado num banco de jardim a apreciar o calor do sol e de repente via-se naquele lugar frio, sentado, à espera, não sabia de quê, e não soube quanto tempo passou assim, perdia-se em alguns pormenores, um risco na parede em frente, a cor baça da madeira dos bancos, no canto estava uma televisão ligada, mas não captava qualquer canal. Parecia uma sala de espera num hospital, a luz crua, paredes beges, nada digno de nota, ficou ali sentado muito tempo e talvez até tenha adormecido, tentava lembrar-se, o que é que acontecera, estava num banco de jardim, sim, e agora estava sentado numa sala de espera, estava ferido, doía-lhe alguma coisa, não, não sentia nada, nem mesmo as dores das articulações que o faziam sofrer, alguém o chamava, perguntou, onde estou?, o que está a acontecer? Alguém com a atitude de um funcionário apenas disse “siga-me, chegou a sua vez” e conduziu-o pelo corredor cinzento até à última porta da esquerda. “Pode entrar”, disse do interior uma voz roufenha. Abriu a porta, viu uma mesa e uma cadeira no meio do compartimento, uma grande janela deixava passar uma luz forte e não conseguia perceber quem estava na sala. Sentou-se e fechou levemente os olhos, para tentar ver através da cegueira da luz. Alguém fez deslizar uma persiana e através da luz menos intensa, já conseguia entrever uma espécie de podium à sua frente, com alguns pássaros, sim, pássaros, um corvo à esquerda, uma andorinha e uma gaivota à direita, e uma coruja no alto do podium. Sim, era mesmo uma coruja. A voz roufenha fez-se novamente ouvir: “Diga-nos o nome, naturalidade e última morada.” A voz parecia vir do corvo. Respondeu automaticamente. António Soares Pinto, natural de Vila Real, vivo na Travessa Heróis da Pátria, no Porto. “O senhor sabe por que está aqui?” Intimidado, e sem pensar na incongruência do tratamento, respondeu rapidamente “Não senhor, não sei”.

– O Senhor António Soares Pinto é acusado de indiferença, de negligência e não assistência a um pássaro em perigo. É ainda acusado de egoísmo, arrogância, comodismo, quezilência e ingratidão. O que tem a dizer em sua defesa?

– Ena, onde foram buscar essas ideias?

– Nega que um pássaro ferido lhe caiu aos pés e não se mexeu para o ajudar?

Um pássaro? Sim, um pássaro, no jardim. Alguém o pusera a salvo e lhe dera migalhas. Não havia muito que pudesse fazer…

– O seu silêncio fala por si só. Nega então o seu egoísmo e comodismo? Preferiu desde sempre a sua vidinha confortável a envolver-se com os outros.

Dito daquela forma, parecia pior do que era. As mais das vezes via-se como um espetador, é verdade, mas…

– Nega ainda a sua arrogância? Não avalia toda e qualquer criatura com desdém, sentindo-se sempre superior a todos, não dando espaço a nenhuma forma de empatia?

Isto já estava a ir muito longe. Abriu a boca para dizer alguma coisa em sua defesa:

– Não me sinto superior a todos, mas a grande maioria…

– Sim, sabemos o que pensa sobre “essa gentinha”. E não se tornou com o tempo cada vez mais impaciente, criticando tudo, zangando-se com todos, até ficar reduzido à solidão e à amargura, negando a própria vida? – desta era a voz esganiçada da gaivota a interrogá-lo.

Sentiu como se tivesse recebido um soco. Viu-se como um miúdo num banco da escola a enfrentar o escárnio do professor. Mas são pássaros…

A gaivota soltou um grasnido e exclamou:

– Todas as vidas são importantes! Todas as vidas fazem parte da Grande Vida, a Grande Corrente de tudo o que é…

– Nunca teve nenhum sonho? Nada que o inspirasse? – desta vez era uma voz profunda e lenta, a voz da coruja.

– Eu… eu sempre quis voar.

– Então está condenado a viver o seu sonho. – e, com um bater rápido de asas, os pássaros saíram um a um pela janela meio aberta. Ficou uns momentos apenas a olhar, cada vez  mais surpreendido. Podia ver o céu azul, imenso, e a luz que antes quase o cegara, agora parecia-lhe segura e convidativa. O céu azul, pensou. Com o coração tão cheio de alegria que transbordava, abriu as asas e levantou voo.

 

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