sobrevivência

Queria revisitar  londres, mas já fiquei chateada com a empregada que me ignorou principescamente do alto do seu metro e cinquenta e cinco, esta é seca e antipática, prefiro a outra, gordinha e amável, que já sabe o que quero, meia de leite e torrada biju, às vezes muda, como hoje, uma torrada de pão de forma, fofa e quente, estou com imensa fome, a esta hora está mais gente, talvez tenha de passar a ir para o green tea, mas não gosto do pão de sementes, mas lá pensam que é isso que gosto, não quero desiludi-las, vinha para aqui sentar-me e sonhar londres, littleheath, greenwich, notthing hill, camden, carnegie hall e todos esses nomes dos livros e dos filmes, e das vidas, milhares de vidas, mirtilhos e framboesas ao pequeno-almoço, hi gorgeous dos homens da jamaica, e as casas de chelsea, fui para londres curar a minha melancolia, tirar férias destes pensamentos circulares, paredes neuróticas, medianias cinzentinhas, colocar tudo entre parênteses, a incompreensão, a crueldade, a falta de compaixão, somos cruéis para com os mais fracos, gostamos de esmagar os insetos, squash, assim facilmente, não temos de ter culpas, squash, espremer, esmagar, apertar, os insetos não interessam, mal se vêem, mas incomodam, se fossem maiores talvez remoesse qualquer coisa, aqui nas entranhas, um queixume, uma gota de dor ou de raiva, mas não, são insignificantes, são desinteressantes, e às vezes até nojentos, um tanque de assalto passa por cima e ficam apenas os traços dentados na lama, mas não é frança e as trincheiras, volto a londres, o palácio de buckingham, o memorial kitsch no harrod’s, a diana e ao outro, nunca me lembro do nome dele, falaram-me em ir trabalhar para o pai dele, procuravam uma empregada portuguesa, tiveram lá a cristiana, gostaram muito, queriam outra portuguesa igual, a chefe de staff era dinamarquesa, aparentemente nada boa gente, ainda bem que não fui, seria estranho, tenho horror a upstairs e downstairs, nunca entendi esse mundo, ou talvez o entenda muito bem, o meu mito é voar, sempre que tropecei nessa realidade, faço ricochete, ao mesmo tempo intriga-me, milhares e milhares de anos de servidão e escravidão, de donos e escravos, de senhores e servos, essa relação horripila-me, a visão de cargueiros, as ilhas sufocantes, o amor e o ódio, a paixão e a tortura, está tudo cá dentro, os predadores e as presas, o domínio e a submissão, e então é isso, fui para londres para sobreviver.

2 thoughts on “sobrevivência

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s