Pequeno-almoço no café

Levantar de manhã cedo, o dia claro, a mente enevoada, sentada na mesa do boémia, a memória do pastel de nata de outro dia, o leite e o café e a espuma dos dias, de todos os dias, sem conversa, sem lisonja, sorrateiramente, qual é o som de um pão com manteiga, espreito gorgeios, levanto panos de renda, remendo videiras com um alicate e recorto este sabor de chávena de chá com gotas a escorrer, equilibro-me na borda, se desse um passo e fosse para o outro lado, que tipo de dia seria?

Um presente no céu do teu primeiro amor, fugitivo de uma gaiola de pássaros, às dez horas em ponto, escalo o ponteiro dos segundos, balançando no tempo milimétrico de face ruiva e sardenta, o peso nos olhos, o gosto áspero de uma manhã fria nas pálpebras, de janela aberta, seguro na asa o estremecer de penas suaves e lisas, um novo estrebuchar rebenta nestes dias de falas sem rumo, cruzar os ares, largar o veleiro nas nuvens escarpadas e cegas, seguir o vento dos desejos, percorrer as nervuras da madeira espartana, e só se assim quiseres, soluço de cavalo à chuva, no alto de um inverno à deriva, fito o soldado de chumbo nos pés da cama, por que não adormecer aqui, sem guarda noturno e sem as palavras ditas ao telemóvel da mesa do lado.

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