No reino para além das montanhas – Bia

Há muitos muitos muitos séculos atrás, os deuses povoavam os céus e andavam sempre muito ocupados em correrias e festas. E quando não estavam ocupados a planear alguma partida, gostavam de meter o nariz nos assuntos dos humanos. Os humanos por sua vez não paravam de os temer, de os louvar e de lhes pedir tudo e mais alguma coisa. Até que os deuses se cansaram ou os humanos encontraram outras criaturas a quem venerar, e toda a gente sabe que os deuses vivem de serem desejados, por isso foram-se extinguindo aos poucos. Sim, os deuses também se extinguem como as baleias brancas e os pinguins cor-de-rosa. Já encontraram um pinguim cor-de-rosa? Pois não, é que já não existe.

Os deuses ficaram mais raros mas também mais distantes, ocupando a ala norte do paraíso do leste. Ninguém sabe porquê, mas suspeita-se que seria para estarem mais perto da fonte da juventude. E toda a gente sabe o quanto os deuses anseiam por eterna juventude e beleza, mesmo quando isso não dura para sempre. Já disse que mesmo os deuses não duram para sempre? Mas mesmo assim vivem tanto tempo que ficam a pensar que vivem para sempre. Por isso é perigoso ser um deus. Podemos fazer disparates quase para sempre.

Na ala norte do paraíso leste vivia uma pequena deusa ainda em formação chamada Bia. A pequena Bia tinha caracóis castanhos e olhos cor de avelã. Tinha todo o paraíso leste para brincar. Tinha todos os animais de estimação que poderia desejar, mesmo pinguins cor-de-rosa. Apesar de  estar muito ocupada com as brincadeiras, ainda sobrava algum tempo para se aborrecer. Sentia falta de um amigo especial, pois todos os deuses lhe pareciam demasiado antigos e fúteis, só interessados em curas de juventude. Era a única pequena deusa em formação. E quando pensava nisso suspirava. Nesses momentos, debruçava-se nas bordas do paraíso e espreitava curiosa o planeta azul. Sonhava brincar com o planeta azul como se ele fosse uma bola. Sonhava soprar e vê-lo navegar como um barco azul. Um dia em que estava especialmente curiosa ou especialmente aborrecida, inclinou-se mais um pouco, como para tocar naquela encantadora bola azul, e… caiu aos rebolões pelo céu fora, foi apanhada pela lei da gravidade, e foi aterrar devagar, suave como uma pena, num prado verde imerso em papoilas e margaridas.

Encantou-se com as ervas altas, os dentes-de-leão e os pequenos animais que rapidamente surgiram à roda dela. Mas ela procurava uma amigo especial, e pôs-se a caminho. Sem reflectir, seguiu uma vereda que a levou a um castelo escuro e musgoso. Passou levemente pela ponte levadiça e foi tocar no grande portão com as suas mãos macias, mas nada aconteceu. Então bateu as palmas e o grande portão gingou, a contragosto, e abriu-se rabugento. O castelo parecia inabitado. Bia chamou: está alguém? As teias de aranha habitavam os cantos e os cogumelos rebentavam onde podiam. E também havia um cheiro estranhíssimo. Não sabia ainda que se chamava cheiro a enxofre. Mas isso não a impediu de admirar um pequeno arbusto que crescia à toa no centro do pátio do castelo. Aproximou-se e apercebeu que era uma planta de tomates-cereja. Era louca por tomates-cereja, poderia comer uma dúzia em três segundinhos, e aqueles pareciam especialmente redondos, maduros e saborosos. Não resistiu a pegar num com as suas mãos pequeninas. Levou-o à boca e no momento em que ia trincá-lo com os seus dentinhos de marfim, ouviu um grande urro seguido de vários entrondos. Depois o som ritmado de passos na pedra… tão volumosos como se os passos pertencessem a um gigante. E pelo ruído dos passos, qualquer pequena deusa poderia perceber que o gigante estava muito zangado. Quando a criatura se aproximou, a fumegar e respingar daquela forma, só podia ser um dragão! O dragão abriu a grande bocarra que mais parecia a entrada para uma caverna. Bia receou que na ideia do dragão ela seria parecida uma boa iguaria para enfiar na caverna. Por isso resolveu falar bem rápido.

– Peço muitas desculpas senhor dragão, não devia ter entrado, mas o castelo parecia inabitado, eu chamei, mas ninguém respondeu, e depois vi estes tomatinhos tão apetitosos, sei que não devia,  mas ia trincar um só, um sozinho… não são tão bons e vermelhinhos?

O dragão fez um barulho como o resfolegar de um cavalo e a pequena deusa achou que ele não estava nada satisfeito. E continuou.

– Que descortesia a minha, nem me apresentei! Chamo-me Bia e sou uma deusa em formação. Vivo na ala norte do paraíso leste e caí das bordas sem querer e vim parar aqui. Preciso de ajuda. Estou à procura de um amigo especial. É que eu sou a única pequena deusa em formação. – E com isto baixou os olhos e suspirou.

A voz do dragão surgiu cava e rouca. Como se ele ainda não tivesse tomado o pequeno-almoço.

– Eu chamo-me Timóteo e sou um dragão muito antigo e conceituado. Hmmmm, um amigo especial? Para que precisas de um amigo especial?

A pequena deusa Bia esqueceu o cheiro a enxofre que se tornara mais forte (embora ela não soubesse que se chamava assim), e disse baixinho:

– Eu só queria um amigo… assim, especial, que me fizesse sorrir, só de pensar nele, e que ele também sorrisse quando pensasse em mim.

Para um animal tão assertivo, tão grande e tão feroz, o dragão ficou uns segundos sem saber o que dizer. E depois perguntou: e se fôssemos jogar às escondidas? Passaram horas esquecidas a fazerem descobertas de aahs e oohs por todo o lado. O castelo escondia lugares fabulosos atrás de portas que não resistiam ao bater de palmas da pequena Bia.

No final do dia a pequena deusa Bia voltou para o paraíso do leste pois os seu tutor já devia estar preocupado. Mas antes de partir, perguntou:

– Posso voltar para brincarmos às escondidas?

O dragão mostrou-se muito agradado. Nessa noite, cada um sorriu ao pensar no outro.

 

(primeiro rascunho, sem correções, 25-06; ver o tesouro do dragão)

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