A viagem


Foi provavelmente a sua primeira grande viagem iniciática.

Era aluna de yoga num centro budista do Porto e nesse ano organizaram uma viagem a uma mosteiro em França, nos Alpes Marítimos, para celebrar o Losar, o Ano Novo Tibetano, que coincidia com as férias do Carnaval. Nesse ano era finalista de Línguas e Literaturas Modernas e dava aulas de português e francês em Leça, por isso não só teria disponibilidade de tempo como financeira. Ia viajar com pessoas ligadas ao centro do Porto, de Lisboa e do Algarve. Foram alugados dois autocarros que os transportariam para as montanhas perto de Nice.Não ficaram muitas memórias da viagem de autocarro, excepto, talvez, as longas conversas com uma colega das aulas de yoga, muito analítica e estudante de Filosofia.

Chegaram ao mosteiro ao fim da tarde e foram acolhidos pelos tons quentes da luz do sol, por um céu azul e límpido e pelos habitantes e visitantes do mosteiro – belgas, franceses,alemães, portugueses, espanhóis. Estariam mais de duzentas pessoas, não contando as dezenas de crianças, e grande parte ficou instalada numa grande sala com cheiro a incenso e pavimento de madeira lustroso, por cima de uma carpintaria. Cá fora ficavam os sapatos sujos de lama. Mais tarde percebeu que além de dormitório, a sala funcionava como uma espécie de templo. Já estava habituada a ouvir recitar alguns mantras, nas sessões de meditação, mas era bastante diferente participar nos rituais e orações tibetanas juntamente com algumas centenas de pessoas. Por vezes era hipnotizador.

Com a roupa de inverno, tinha também levado na bagagem uma tigela e uma colher, que faziam parte da lista de coisas a não esquecer, fornecida pelo centro. Formavam-se pelos menos duas grandes filas em frente de duas enormes panelas de sopa, feita de legumes claramente biológicos, com cenouras mal cozidas cortadas às rodelas com a pele. Estas cenouras mal cozidas acompanhariam todas as refeições. O pão era escuro e teria alguns dias. Mas havia queijo fresco, produzido no próprio mosteiro. Disseram-lhe que no ano anterior havia mais variedade de alimentos, mais leite e ovos, pois tinham vacas e galinhas, mas o mestre achou que os habitantes do mosteiro deveriam concentrar-se mais na prática e não em serem agricultores e pastores. Também não imaginava que juntamente com novos rituais e comida diferente, viria uma nova linguagem. A prática, praticar, parecia algo de muito importante para todos.  Mas antes de tudo isso, ainda houve uma primeira manhã. Tinha chegado ao mosteiro no final do dia, com os tons quentes do sol e campos verdes. Na manhã seguinte, ao abrir a janela do dormitório, descobriu que os campos estavam agora imaculadamente brancos, o céu encoberto, as árvores serenas e majestosas. Nada a tinha preparado para aquela paisagem, e susteve a respiração. Era a primeira vez que via neve! Depois também descobriu que a neve significava mais lama e os caminhos quase intransitáveis. Ou então escorregadelas perigosas quando a neve se tornava gelo. O pequeno-almoço desse dia traria mais uma surpresa: as papas. Abominava papas. E aquelas pareciam especialmente desenxabidas e pastosas. Experimentou uma colherada. Execrável. Não conseguiu comer mais. Havia chá. Mas não havia pão. Percebeu que tinha de guardar o pão que acompanhava as outras refeições para o pequeno-almoço.

Os dias seguiram-se rigorosamente programados. Oração da manhã às 7h, pequeno-almoço, intervalo para actividades pessoais, ensinamento às 11h, almoço às 13h, intervalo, yoga ou outra prática à tarde, prática à volta do stupa, orações, jantar, orações, ensinamento. O ambiente e as actividades eram tão diferentes daquelas a que estavam habituados, que as resistências começaram a aumentar entre alguns dos alunos de yoga. Achavam que pelo menos deveriam ter sido avisados quanto às refeições (sim, claro, disseram que seriam vegetarianas, mas não espartanas), para poderem levar uma mochila cheia de… bolachas. E as prosternações! Nada poderia estar mais afastado do modo de estar ocidental. Confiavam ao Nuno, que secretariava as aulas de yoga, todas as reclamações, ao que ele respondia, placidamente: “mas aquilo que para vocês é estranho, para outros é normal”. Não era resposta, e o mau humor dela cresceu no último dia do ano lunar, que por acaso era também o dia do seu aniversário. Talvez fosse isso, o facto de ser o “seu” dia de aniversário, que aumentava a resmunguice – não teria o bolo, nem as velas, nem os presentes e os parabéns da família e dos amigos… Nesse dia tudo parecia mais negro e enlameado, a comida mais rude, as práticas especialmente estranhas, a ignorância mais densa.  Toda a vida procurara algo. Respostas. Saber quem era e o que tudo isto é. E todas as pessoas à sua volta pareciam conhecer um segredo que não queriam partilhar. E mesmo o Nuno parecia menos paciente.

Mas no dia seguinte estava sol e voltou a sorrir. E o pão escuro ao pequeno-almoço sabia-lhe bem com o chá sem açúcar e sabor a ervas aromáticas. Tomilho, talvez. O Tenzin, um dos discípulos mais próximos do mestre, sentou-se num prado verde com uma roda de alunos à sua volta e falou como só os poetas falam. E tudo ficou claro.

Pintura: Arrivée, de Yahne le Tourmelin

One thought on “A viagem

  1. só vale a pena ouvir falar pessoas que falam como os poetas falam. instantâneamente, tudo fica claro. abraço margarida

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