Blues do Veludo Azul

Música FM e chá preto em cortinas de linho rendadas pelo tempo que estiveste ausente. Sobras do que resta viver num qualquer pedestal isolado no jardim das flores. Disseste, não tenho isto, não quero isto, não sei. Não sabes. Dizer as contas do rosário uma a uma. Sabê-las. Olhar guloso as hidrângeas da infância, perfeitamente enquadradas nos muros. Ler as pétalas. Aqui tem uma linha que leva ao coração. Que se interrompe nos voos dos comboios a rebentar na solidão. Pausa. Longa pausa. Não tenho mais construções. Se eu pusesse o dedo indicador na tua pele e abrisse uma artéria, colheria a tua dor gota a gota? Ou só a imensa vastidão dos barcos de papel a afogarem-se em poças de água torvadas pelos dias cinzentos da tua partida? Vejo-te lamber os negrumes insuspeitados do abismo da tua comiseração. Não a quero. Não te disse. Há muito que deixei de te procurar em bares esquivos e redundantes. Há muito que te larguei num qualquer copo de vinho tinto meio cheio, suspeitas de duches a engolir lágrimas.

Dizem sempre, se eu pudesse voltar atrás, e não quero, mas se pudesse, iria encontrar-te no mesmo casaco coçado agarrado à comunidade de arquiteturas ideiais do teu pensamento. Jogarias uma outra carta, dama sem espadas, sem dar conta. Sem saber. Partituras fugidias a correr em espaços quebrados.  Isto não é o amor. Não foi aqui que quis desaguar. Não é este o meu porto. Este bago de uva, este dilacerar da pele nos dentes, não é este o som adstrigente que quero engolir.

Fica quieto. Sente apenas. Este pequeno zumbido de viver. Rebolar de pequenos seixos, murmurar de ralas constrições. Aberturas gasosas a borbulhar sentidos, a deixá-los escapar por todas as frestas. O silêncio dos passos de lã em madeira polida. O pestanejar da chávena tranquila. Chá preto em cortinas rendadas, suspeitas transversais à noite. Preenchimento imediato. Busca frenética. Não, não, não foi assim. Foi mais suave. Fucking suave. No veludo azul. Posso-te dizer que foi mais suave e mais faminto. Nascente de narrativas ambíguas. Estilhaços de vidro a rebentar nesta página. Foi mais azul.

(texto escrito usando a mesma técnica de construção do texto anterior)

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