O continente da escrita

Há professores que têm uma chama. E que podem passar essa chama aos outros. Há professores que são mágicos, ou “simplesmente”, poetas. Há outros que são técnicos. Podem ensinar-nos o nome das  coisas, como se faz, para que serve. Mas não há chama. A minha primeira aula do curso de escrita criativa foi dada por um poeta. A segunda aula, por um técnico. Com o primeiro, descobri que a linguagem tem uma vida própria, o seu próprio caminho, o seu próprio percurso, e que temos de confiar no processo. A escrita é um continente a descobrir. É uma aventura. Deste ponto de vista não há razão para nos lamentarmos e dizer coisas como “não tenho jeito, não sei escrever, não tenho imaginação”. O que poderíamos dizer seria qualquer coisa do estilo: “ainda não explorei bem o continente da linguagem”, “ainda não conheço bem os seus caminhos”. Estes caminhos são feitos de cruzamentos, de transparências, de obscuridades… e é a própria linguagem que nos conduz e nos constrói, construindo-se… se nos deixarmos construir.

O exercício de hoje era um exercício de justaposições real/simbólico:

Assim: atribui às palavras janela, porta, chão, mãos e cave sentidos simbólicos, metáforas.

Exemplo:

janela – pedaço do quotidiano

porta – partida para o desconhecido

chão – corpo prenhe de vida

mãos – artesãos do espaço

cave – esconderijo dos desejos

Agora escolhe duas palavras das cinco acima. Escreve um texto usando duas vezes cada uma dessas duas palavras. Depois de o escrever, substitui uma das ocorrências de cada palavra pela expressão metafórica.

Eis o meu texto final:

No chão coloquei as mãos e disseram-me que não estavas aqui.

No corpo prenhe de vida coloquei a dor e pedi que expulsassem todos os deuses.

Debrucei-me ainda mais, tacteei as tuas folhas e os artesãos do espaço espalharam-nas ao vento.

Durante um segundo só consegui ouvir o teu silêncio.

E depois as tuas sementes.

A borbulhar.

Como está um tanto enigmático, é interessante ouvir as diferentes leituras. O “técnico” achou que o tema era a sensualidade. Não era bem essa a minha intenção. Ao escrever o texto via alguém que perdera o amado e se voltava para a terra, com toda a sua dor, e a terra acolhe a dor e fala de regeneração, de nova vida.

Quanto ao meu trabalho no dia-a-dia, a partir de agora queria acompanhar o encontro da Evelyn com o Casi Cielo do Aqui e Agora, e nas minhas páginas matinais, durante 40 dias, só usar o presente do indicativo. Hmmm…. vamos ver o que sai, suspeito que pode ser bem monótono😉

Imagem: Paisagem do Senhor dos Anéis, Cabo da Gata, Almeria

2 thoughts on “O continente da escrita

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