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Escrevo nestas águas e cada palavra é um leve ondular na superfície do lago, se eu continuasse abriria a porta da correnteza e as memórias jorrariam para além dos tempos. Abrir essa porta leva-me a quartos há muito trancados, a objectos que perduram escondidos pelo pó. Respirar traz o peso de anos sem leveza. Os livros adormeceram nas estantes e na secretária há diários em que ninguém escreve. Poderia pensar que este é um quarto sem deus, sem criador, em que nada começou ou acabou. As madeiras rangem suspiros, segredos por confessar, gestos voluptuosos esquecidos. Foi aqui, aqui mesmo que senti esta opressão, esta dor do que nunca foi, este chamamento. Não queria saber-te aqui presente, entre aguarelas e frascos de perfumes. Não queria procurar o teu reflexo no espelho embaciado. Percorrer as sílabas que desenhaste. Não queria voltar a ver o que me deixaste adivinhar nos teus olhos, o medo, os meus dedos no teu pescoço, tão branco, não queria recordar esse prazer adiado, transportando-me aqui, a estas manchas, gotas de sangue seco no tapete.

 

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