deram-me o lado molhado da casa para habitar
deram-me o lado molhado da casa para habitar*
o lado das coisas escuras e pegajosas, com líquenes verdes e sombras fugidias
deixaram-me ali porque não sabiam o que fazer comigo ou cansaram-se de tentar
pelo menos ali podia seguir a dança dos meus dedos e vaguear pelas masmorras desenhadas nas paredes roídas
podia raspar o resto de cal e lamber a transpiração da pedra fria
a parca luz mal conseguia trespassar as grades de ferro carcomido
e estava bem, não precisava de claridade
queria só a escuridão das noites sepultadas na sofreguidão dos incêndios recusados
soltava sons guturais sem eco e sem retorno enquanto polia fixamente o tampo da mesa de madeira esventrada
rodeava-lhe as pernas e escondia os meus segredos nas suas pregas
mas a maior parte do tempo apenas me escondia no canto mais desolado, escondia-me das sombras e dos gemidos que me procuravam
conhecia-lhes o toque e parava a respiração
pensei que se não respirasse não me reconheceriam, e aprendi a não respirar durante muito tempo
podia ficar dias sem respirar
e semanas sem me mexer
as sombras acabavam por se ir embora
durante uns momentos pensava que estava tudo bem e que, talvez, eu pudesse levantar-me e colocar-me sobre a mesa e aproximar a boca das grades e aspirar o ar, a clareza que estava lá fora
engolir os cheiros e as neblinas
e se aspirasse mais havia esta embriaguez boa que me ocupava a cabeça e anestesiava a garganta
e durante uns momentos até percebia sonhos
de pés descalços a caminhar na relva, de sementes preguiçosas a borbulhar na terra, de asas a riscar o espaço, de esboços suaves de bailados vibrantes e inimagináveis
por momentos tinha a espuma do rasto das manhãs nos meus lábios e o bater de voos transparentes nos meus ouvidos
e um cavalo selvagem galopava no meu peito e rugia vitorioso
o meu coração tinha o som dos cascos a bater na terra e arrastava uma tempestade
*verso de Al Berto
