A passagem

Não sabia se acontecera gradualmente ou se foi assim de repente. Era como se tivesse mudado de corpo. Descobria agora um corpo rançoso e mais perro que um velho portão sem uso. Os membros pareciam feitos de uma qualquer matéria paralizante e tinha de procurar apoio para se mover. Tudo lhe doía, e a cada instante descobria mais um músculo ou um órgão sofredor. O cabelo tornara-se completamente branco e mais fraco, e enrolava-o atrás da nuca como vira tantas vezes a avó fazer. Já não ouvia os pássaros e os ruídos do bosque tão distintamente. E via com menos nitidez – as cores menos vibrantes, os contornos mais fluidos. Às vezes tinha de refletir se era mesmo ela, a mirá-la na superfície quieta do lago. Poderia pensar que era outra pessoa, uma velha cansada e deslavada, que a olhava intensamente do outro lado. Tudo demorava mais tempo. Custava a levantar-se da cama, custava a água fria e os gestos para se vestir. A manhã estava já bem avançada quando saía para a sua ronda habitual. Procurava lugares frescos e recônditos para recolher as suas plantas e bagos silvestres. Cada vez mais frequentemente, já não chegava a tempo de recolher o orvalho húmido das folhas verdes. Também se apercebia que na sua cabeça parecia haver uma outra voz. Mais rezingona, mas amarga, mais impaciente. E pensava, é isto envelhecer, é este agror na língua, são estas gretas na pele, estes pensamentos sombrios?.

Gostava de viver sozinha, sempre se sentira bem na sua própria companhia. Mas também gostava de uma boa conversa, um chá partilhado a meio da tarde, uma refeição de risos e sonhos. Gostava do sorriso de alguém que saia da sua casa com mais esperança. Mas de há algum tempo para cá, não era só o seu corpo que parecia diferente. Tudo parecia diferente. Só lhe batiam à porta se estavam num grande embaraço, e mesmo assim, furtivamente, e sem lhe agradecer, quase se benzendo pelo perdão dos pecados. E se cruzava aldeões nos caminhos, desviavam o olhar, quando a não insultavam. Restava-lhe a fiel companheira de sempre, a gata tartaruga, redonda e meiga que a seguia por todo o lado. E que a fazia pensar que não podia esperar mais nada dos humanos.

Naquela manhã fria de Outubro, a gata estava surpreendentemente agitada. Partia numa correria louca e voltava, soltando grandes miados. Sentiu um calafrio. O vento este trouxe-lhe às narinas um cheiro indizível, e estremeceu violentamente. Sabia o que vinha aí. Custou-lhe despedir-se da sua fiel companheira, mas encontrar-se-iam de novo. Já era tempo de deixar a velha carapaça e as vozes carcomidas pelos anos. Era tempo de procurar uma nova vida. Colocou uma manta sobre os ombros e foi sentar-se na margem do lago. Sabia que eles já estavam à sua procura, mas ainda tinha tempo. Respirava calmamente enquanto os sentidos lhe falhavam um a um. A superfície quieta do lago tornou-se fosforescente e viva. O céu difundia uma luz abrasadora. Durante alguns segundos sentiu o velho coração falhar e um novo ritmo, palpitante, veio atordoar-lhe por momentos os ouvidos. Deu uns passos, estendeu orgulhosamente as asas e levantou voo. Circundou o lago em pequenos círculos e ainda distinguiu as silhuetas da populaça a observar as roupas caídas na margem do lago. As silhuetas tornaram-se pontos insignificantes. A mente clara, o olhar aguçado e límpido, o corpo ágil, voou elegantemente em direção às montanhas do norte. Cada uma das suas células vibrava de alegria. Estava a chegar a casa!

TPC do Clube de Escrita Criativa, 13 Novembro 2011

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