A gaveta
Nessa noite caminhava pela rua particularmente desatento, ou apenas distraído. Por isso quase tropecei nela. Na gaveta.
Quando esbarrei na gaveta fiquei a pensar o que faria ela ali sozinha numa rua completamente deserta do centro da cidade. É verdade que não era muito tarde, ainda nem era meia-noite. Mas fiquei intrigado.
- Desculpe, espero não a ter magoado, estava distraído.
- Por quem é, acontece a todos, estou óptima, nem um beliscão.
Senti-me suficientemente curioso para arriscar continuar com a conversa.
- É de cá? Posso ser-lhe útil?
- Nota-se muito que ando perdida? Vou pernoitar na casa de uma amiga, já lá estive uma vez, mas as coisas mudam, não sei porquê, não consigo encontrar a rua. Devo-me ter enganado algures. Ela mora na Rua Detrás, conhece?
- Esse nome diz-me alguma coisa… – e, solícito – eu diria que estamos bem próximos, posso acompanhá-la uns momentos para verificar.
- Já perguntei a várias pessoas mas todas me deram indicações vagas e algumas até duvidaram da sua existência. De uma forma que não consigo explicar, a Rua Detrás ilude-me sempre. Quando penso que estou quase lá, afinal não é.
- A não ser que haja várias ruas detrás. Aliás, potencialmente, todas são ruas detrás, até as encontrarmos, aí, deixam de ser.
Os grandes olhos da gaveta abriram-se bem redondos e exclamou:
- Exatamente, pode ser mesmo isso! Mas então tenho um problema: como vou encontrar a casa da minha amiga? Haverá alguma rua que seja detrás de todas as outras?
Neste momento podia detetar o excitamento causado pela ideia, mas também o subsequente desapontamento face ao que parecia inalcançável.
- Mas já lá estive uma vez, portanto, a qualquer momento posso voltar a cair nela, não acha?
Neste ponto eu próprio estava também deveras intrigado com a situação.
- Isto já parece pior do que perder-se no labirinto do Minotauro.
- O labirinto do Minotauro?
- Sim. Conhece a história? O Minotauro, um monstro parte besta parte homem, foi aprisionado num intrincado labirinto construído por Dédalo, e quem lá penetrasse não teria grandes hipóteses de se salvar, para não falar da possibilidade de se encontrar com o monstro. Periodicamente, o rei tinha de lhe oferecer uma virgem para o aplacar.
- Um sacrifício, quer dizer?
- Sim, um sacrifício.
- E como é que a história acaba?
- Um herói veio salvar a cidade daquele horrível destino e matou o Minotauro. Para sair do labirinto usou um fio para marcar o caminho.
- E acredita nessa história de fio?
- Acredito que é possível concebermos estratégias que evitem sermos devorados.
- Acredita então em planeamento, é isso? – insistiu a gaveta.
- Acredito que em certas situações temos de nos precaver.
- Em relação a…?
- Qualquer coisa. Tudo. A mais pequenina coisa. Alguma coisa pode sempre correr mal quando menos esperamos.
- Considera-se então um indivíduo precavido? Isso não torna tudo na vida muito mais mecânico e sem graça?
Refleti alguns segundos.
- Não. Na verdade não. Torna tudo mais empolgante.
- Acha sempre que pode encontrar uma saída para qualquer situação?
- Sim, procuro sempre uma saída. Acho que há sempre uma solução.
- Mesmo que a saída seja não ter uma saída?
Hesitei.
- Sim, podemos também considerar essa opção.
Durante esse tempo deambulámos por um quarteirão residencial um pouco ao acaso, até que a gaveta estacou.
- Isto recorda-me qualquer coisa. Estas árvores, este gradeado.
Andámos mais uns metros.
- Pois, é exactamente aqui. O n.º 49.
- Excelente! Quero crer que com a nossa conversa, acabou por se sentir mais relaxada e os seus passos conduziram-na intuitivamente a um lugar que já conhecia.
- Pode ser. Sim, é possível. Quer entrar? A minha amiga teria imenso prazer em conhecê-lo.
- A proposta é deveras tentadora. Agradeço imenso.
Fiz uma pausa.
- Mas vou intrometer-me no seu reencontro. E realmente tenho um compromisso. Talvez um outro dia.
- Não seria uma intromissão. Mas sim, apareça. Quando quiser. Para um chá.
- Aparecerei, sem dúvida.
- Resta-me agradecer-lhe. Salvou-me a vida. A sério.
- Que exagero! Eu é que agradeço a amável companhia.
E com uma pequena reverência, fui-me afastando aos poucos, às arrecuas, e depois a passos mais largos. Não sem antes perceber na gaveta um pequeno sorriso, meio divertido e meio escarninho – ou teria sido impressão minha?
Sem me conter, apressei ainda mais o passo. Acabara de reconhecer nela o último modelo da série Skolda, um dos agentes mais letais construídos pelos laboratórios Ikeea. Nas suas mãos, eu nada mais seria do que farelo para térmites.
