Curtas
Reconheço no decorrer da escrita a voz que não quer continuar a história, que tem medo de não conseguir ou saber continuar a história, de não saber onde vai ter, se é interessante ou se é treta, se consegue dar um fim ou simplesmente chegar ao fim. Reconheço a voz que quer parar, que diz, já chega, depois continuo, depois estarei mais inspirada. Reconheço também a voz que diz: se parares agora já não vais conseguir reatar, ou não será o mesmo, ou não conseguirás seguir o fio da história, perderás qualquer coisa. Talvez a percas para sempre.
Outra voz diz: cada palavra tem múltiplas possibilidades. Neste momento é um enigma que se desvanece lentamente, letra a letra, palavra a palavra. Confia no processo. Abandona-te ao processo. Não queres saber como acaba a história? Tens de confiar que cada história se revela a si mesma.
Há outra voz que reconhece a dificuldade da musa, que quer entregar a história a quem não está lá para a escrever. Há histórias “all over”, mas é necessário o trabalho de sentar e recolhê-las. E isso parece o mais difícil. É difícil largar o fio de Ariane, é difícil aventurar-se.
Imagem: Le livre des Couleurs, Yahne le Tourmelin

