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a conversar

27 Mai

O autocarro estava demorado. Disse que se eu a acompanhasse não se importava de ir a pé, que a conversar o tempo passava num instante. Disse que tinha ido arranjar o cabelo, que quando era nova era desleixada, não é que fosse propriamente desleixada, as pessoas diziam que tinha uma cara simpática e ela deixava-se levar por isso. Mas agora tinha mais cuidado. Uma mulher com o cabelo arranjado e os sapatos bonitos já estava bem. Insistiu em dar-me a morada da cabeleireira, na rotunda da Boavista. Por 22 euros tinha lavado, cortado e pintado o cabelo. As unhas foram 4 euros. Estava com pressa porque o pai estava à espera para almoçar. Quando chegasse a casa a primeira coisa que faria era pôr água a ferver, cozia uma batatinhas num instante. O pai era tudo o que lhe restava, o pai e um irmão deficiente que iria visitar logo à tarde. No Natal estariam só os três, era essa a família dela. A vida era só casa e trabalho. O pai tinha trabalhado imenso, tinha começado aos treze anos, e reformou-se aos 55, não por invalidez, mas por já ter os anos de trabalho para a reforma. Mas depois foi procurar um emprego e trabalhou até agora, quase aos 80. Só parou porque teve uma pneumonia. Ela não tinha amigos, nunca tivera amigos. No início, quando fora para a função pública, há catorze anos atrás, fora uma grande alegria, o trabalho era uma segunda família. Agora as coisas estavam diferentes. As pessoas eram invejosas, cada uma pensava só em si. E tinham de andar em cima dos professores, marcar logo falta, não era como antigamente. Ela era bipolar, essa doença de que se fala muito, mas olhe que há também uma professora a trabalhar que também é bipolar. Tinha de tomar sempre medicamentos, quando tudo estava bem, como agora, não havia problemas, mas em certas alturas era muito mau, tinha depressões, queria suicidar-se. Tinha de tomar sempre os medicamentos. Moro aqui. Nestes prédios. Somos quase vizinhas.

Dez 2007

Os mensageiros

12 Mai

Comecei esta semana uma prática xamânica de pedir uma mensagem/ um mensageiro cada manhã. Ao sair de casa, no meu curto caminho até à paragem do autocarro, estou atenta a algo que para mim faça sentido e que possa ser encarado como uma mensagem “de sabedoria” para o meu dia. Por incrível que pareça… tem sido significativo. Comecei na quarta-feira. Ao sair para a rua, tudo parece o mesmo, sem nada de “especial”, e vejo uma gaivota a voar para a minha direita. É verdade que as gaivotas agora estão instaladas na cidade, mas por qualquer razão fico atenta. Penso que para que esse voo seja marcante, vou ter de o ver 3 vezes. Uns metros depois, vejo a gaivota a voar, mas dirigindo-se a sul. Ok, segunda vez. Continuo o meu percurso e chego à paragem do autocarro. Espero. Felizmente, não muito, o autocarro está a chegar. E a gaivota passa uma terceira vez. Qual a mensagem? Para mim esta questão de voar tem estado muito presente ultimamente como mensagem de libertação. É espantoso pensar que quanto mais nos debatemos, mais nos atolamos. Somos prisioneiros de nós mesmos, pois como diz a história zen, ninguém nos prende. Durante o dia, as mesmas histórias de sempre, em que nos enredamos e em que parece não haver saída. Mas talvez, sim, pode ser, há outras formas, outras construções, outras escolhas.

Ontem fui dar uma volta maior, pois tinha tempo e apetecia-me usufruir da manhã. Nada de especial me prendeu a atenção. Até que ao chegar perto da paragem onde desta vez ia apanhar o autocarro, vi uma pomba morta num canto. Pensei: se é esta a mensagem para o meu dia, bonjour l’angoisse, que depressiva! Viro a esquina… e uma pomba acaba de poisar no passeio, vibrante e esvoaçante. O contraste com a imagem anterior é flagrante e não posso deixar de pensar que é uma mensagem poderosa. Algo morre. Algo está vivo. A direção é clara. Apesar disso, uma história do passado ocupou-me toda a manhã, algo supostamente morto. Não tenho mais nada a fazer com essa história e no entanto vejo-a e revejo-a, tudo repassa novamente, e encontro até continuações. Mas está morto. Tempo para voltar ao que está aqui. Ao que está vivo.

Hoje, o mesmo cenário ao sair de casa, nada de especial se passa, não sou surpreendida por um pássaro especial, por uma árvore de contornos diferentes nem por uma planta de cheiro intenso. Até chegar perto da paragem. Vejo uma carteira de mulher, com círculos cravejados, que  fazem lembrar a representação do sol e cuja configuração também se assemelha a um mandala que coloquei no Pinterest. Pergunto-me se esta imagem será significativa e de que forma, e ao erguer o olhar, o sol espreita por entre as nuvens. Continuo o meu caminho a pensar que o sol a espreitar entre nuvens no céu não é nada de muito extraordinário – e olho novamente, e só um céu compactamente cinzento me olhou de volta. Outra imagem significativa para mim. Tenho falado nos meus workshops da imagem do nosso espírito enquanto o céu vasto e imenso, onde o sol brilha, mesmo para além das nuvens, fortuitas, passageiras, eternamente mutáveis e não sólidas.

A escrita é um processo de “sim”, tem uma voz, imagens e narrativas. Para os escritores, sobretudo se principiantes, talvez a maior dificuldade esteja em confiar no processo, largar, abrir assas, confiar que escrever não é um beco sem saída, pois o espírito/a intuição/a criatividade não tem limites. É o céu imenso onde brilha o sol (ou para outros, o astro lua), mesmo que escondido para além da nossa camada nebulosa de confusões, dúvidas, inseguranças e medos. Queremos confiar, mas também somos extremamente cautelosos, queremos abrir-nos para as mensagens da vida e acreditar que estão lá, todos os dias, no caminho de casa para o autocarro, cinco minutos para receber “inspiração divina”, mas desconfiamos, talvez hoje não, talvez hoje falhe, ou eu não veja, ou não haja nada para ver e isto seja mais uma daquelas histórias, mais uma ilusão. Sim, é verdade, é uma história, mas por isso mesmo pode assumir contornos inesperados. Pode ser mágico. Só temos de aceitar a imensa liberdade do espaço aberto à nossa frente, fresco e fecundo, abrir as asas e lançar-nos do alto. Confiar que o imenso espaço nos sustém e se abre a nós. É disso que é feito.

A que tribo pertences?

23 Abr

as meninas nipónicas a tentarem falar português, na verdade não sei, serão chinesas ou japonesas, recordo tudo o que sei sobre as caraterísticas de ambas, que quase se resume ao formato dos olhos, que talvez até nem seja assim, e o pensamento inpoliticamente correto de que é embaraçoso não sabermos reconhecer uma raça, pensar “são todos iguais”, embora a questão mesmo não está em não se distinguir as diferenças, está no “eles”, e o espanto de um asiático no ocidente, “têm os olhos tão abertos!”, nunca pensaria nesse ponto de vista, pensar no que será, isso de pertencer a uma tribo, de nos depararmos com “os outros”, eu já pertenci a uma tribo, as diferenças não estavam nos olhos, mas no vocabulário, engraçado como as palavras estabelecem fronteiras, uma entoação, uma expressão, e há este continente desconhecido, a escuridão para lá destas paredes, este território vasto lá fora, a rejeitar ou a descobrir

 

 

P.S. as fotos são de um homem e mulher japonês/esa, chinês/esa e coreano/a; alguém quer arriscar “etiquetá-los”?

os lápis de cor

12 Abr

Voltar ao tempo dos cadernos de folhas pautadas, a lousa, o giz, as carteiras da escola, os lápis viarco, eu ainda usei penas com bicos que mergulhavam na tinta azul e desenhavam letras de traços não uniformes, com pequenos borrões, ditados de zero erros e redacções com c sobre a primavera e as andorinhas, desenhos de casas com uma porta e duas janelas e fumo a sair pela chaminé, fumo azul, como as nuvens, azuis ou amarelas, o sol de raios e olhos e boca, lá no cimo, a pairar sobre o grande branco da folha, recortado de árvores de troncos castanhos e frondas verdes, e as andorinhas, sim, no imenso branco, duas asas e era a primavera nas flores cor-de-rosa e vermelhas, bem alinhadas pelo caminho que ia ter à porta da casa entreaberta.

Pastelaria

7 Mar

Pode a arte mudar o mundo?

16 Fev

Escrever no café

15 Fev

Durante algum tempo escrevi as minhas páginas matinais logo ao levantar, é uma questão de organização: com a prática da escrita, precisamos apenas de 20 minutos para umas 3 páginas. Mas, se bem que a escrita goste da tranquilidade, pode ser bom mudar a rotina, escrever no café onde tomamos o pequeno almoço, na esplanada onde vamos tomar café ou olhar as ondas. Sobretudo se nos sentimos encalhados. Os textos livres são frequentemente uma escrita de intereseções, pois somos muitas vezes interrompidos. Mas “a escrita é onde eu reúno, onde todas as interrupções estão presentes”. A escrita é inclusiva.

 

Começar sem saber, atirar-se e mergulhar sem saber, onde nascem fontes rebeldes e passeiam cavalos encantados em rotundas flamejantes, não ter a constância, as conversas sobre futebol e a situação, a miséria dos pobres, não saber, mergulhar sem saber, a porta que desliza e se abre, bom-dia, a frescura matinal da rua que entra cheia de promessas, outro dia, sem saber, um outro enredo, uma festa de Carnaval e os olhares que se cruzam na manteiga desse pão e no restolhar da máquina de café quando se aquece o leite até ferver, mergulhar novamente, obrigadíssima, trocam-se as palavras com o esvoaçar das folhas do jornal, o sobrinho direto do Ferreira Neves e a impaciência de querer outra coisa, de calar a mulher, de querer o silêncio e apenas o toque das colheres na chávena, mas não dura, nada dura, a conversa acaba, há sempre outra coisa, uma passagem, uma pausa, o silêncio da buzina do carro e esse burburinho apaziguante da cidade depois das 9. Há sempre uma pausa antes de outra coisa, antes do próximo autocarro, o próximo cliente, o próximo até-amanhã, o próximo sonho e as pétalas da flor em tecido com o botão a condizer.

 

Greentea, hoje

Fotografia: café Mud Dock, Bristol