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31 Mai

No parque havia um velhote que era caçador, daqueles a sério, que antes de caçarem sonham com os animais. Andámos horas a pé e quando chegámos lá estava o fulano sentado. Eu pensei: “Já vi isto.” Ele estava numa esteira, com um facão a fazer uma zagaia. Não nos cumprimentou, não falou connosco. Só quando eu disse que era um contador de histórias, não ia dizer escritor, e que gostava de ouvir as dele, é que levantou os olhos e olhou para mim. Disse que no dia seguinte, às 4h, me levaria à gruta das hienas. Lá fui. Mostrou-me pegadas de animais, andámos assim toda a manhã. Depois almoçámos e perguntei-lhe se à noite podíamos fazer o mesmo para ver animais que só circulam à noite. Ele respondeu: “Você não percebeu nada. Sou cego, não vejo. Só vejo quando estou a caçar, e de noite não caço.” E eu lembrei-me que já tinha ouvido isto. Há uma frase minha no “Jesusalém”, dita por uma das personagens, um velho também, que diz: “Só vejo quando escrevo.”

Mia Couto

a conversar

27 Mai

O autocarro estava demorado. Disse que se eu a acompanhasse não se importava de ir a pé, que a conversar o tempo passava num instante. Disse que tinha ido arranjar o cabelo, que quando era nova era desleixada, não é que fosse propriamente desleixada, as pessoas diziam que tinha uma cara simpática e ela deixava-se levar por isso. Mas agora tinha mais cuidado. Uma mulher com o cabelo arranjado e os sapatos bonitos já estava bem. Insistiu em dar-me a morada da cabeleireira, na rotunda da Boavista. Por 22 euros tinha lavado, cortado e pintado o cabelo. As unhas foram 4 euros. Estava com pressa porque o pai estava à espera para almoçar. Quando chegasse a casa a primeira coisa que faria era pôr água a ferver, cozia uma batatinhas num instante. O pai era tudo o que lhe restava, o pai e um irmão deficiente que iria visitar logo à tarde. No Natal estariam só os três, era essa a família dela. A vida era só casa e trabalho. O pai tinha trabalhado imenso, tinha começado aos treze anos, e reformou-se aos 55, não por invalidez, mas por já ter os anos de trabalho para a reforma. Mas depois foi procurar um emprego e trabalhou até agora, quase aos 80. Só parou porque teve uma pneumonia. Ela não tinha amigos, nunca tivera amigos. No início, quando fora para a função pública, há catorze anos atrás, fora uma grande alegria, o trabalho era uma segunda família. Agora as coisas estavam diferentes. As pessoas eram invejosas, cada uma pensava só em si. E tinham de andar em cima dos professores, marcar logo falta, não era como antigamente. Ela era bipolar, essa doença de que se fala muito, mas olhe que há também uma professora a trabalhar que também é bipolar. Tinha de tomar sempre medicamentos, quando tudo estava bem, como agora, não havia problemas, mas em certas alturas era muito mau, tinha depressões, queria suicidar-se. Tinha de tomar sempre os medicamentos. Moro aqui. Nestes prédios. Somos quase vizinhas.

Dez 2007

Duarte

3 Abr

Texto de Pedro Ferreira, autor residente no Cabaret do Marquês - aqui, autor convidado:)

Cláudia já saía com o seu namorado Duarte há alguns meses. Ela tinha uma escova de dentes no apartamento dele, mas não as chaves de casa. Duarte Trigo é português e após algumas dificuldades durante os primeiros tempos, conseguiu vencer naquela cidade do nordeste brasileiro. Portugal tinha ficado para trás há quatro anos e ele prosperou com a abertura da mais badalada casa nocturna da cidade, frequentada pelos filhos da elite local. O estabelecimento era detido em regime de sociedade com Francesco, um italiano oriundo da Calábria. Progressivamente, Duarte foi ficando influente e conhecido de todos. De facto, mal se podia olhar para as patéticas colunas sociais da região, sem ver o seu rosto estampado na companhia de outros empresários e alguns políticos.

O que ele estava a fazer com ela era um pouco incerto. Ela era cerca de doze anos mais nova que Duarte e completamente desconhecida. Porém, trabalhava em publicidade, facto que o deixava curioso e entendiam-se muito bem. Apesar de ele deixar claro que não queria – e não iria – comprometer-se. Duarte era divertido, culto e exalava um charme enigmático. Ela tinha vinte e cinco anos e estava aberta a qualquer coisa.

Naquela noite, Cláudia ficou de se encontrar com Duarte no seu bar, localizado no exclusivo bairro de Petrópolis. Este era o único pormenor de que ela não gostava na relação. Apesar de ele não ficar até muito tarde, era um local pouco propício para conversas e eram constantemente interrompidos por desconhecidos que insistiam em cumprimentá-lo ou pequenos grupos de mulheres que se exibiam para ele.

No entanto, naquela noite, Duarte dedicou um pouco mais de atenção à sua parceira. Bebiam champagne numa área mais reservada e ele acariciava-lhe com delicadeza as costas, evidenciadas por um sensual decote do vestido preto, que Cláudia tinha escolhido para aquela noite. Eles contemplavam as pessoas que se aglomeravam junto ao bar principal, localizado no piso inferior. Duarte perguntou-lhe o que pretendia fazer mais tarde.

- Bem, nós poderíamos contratar uma prostituta – disse a Cláudia, querendo excitá-lo.

Eles mantinham conversas sobre esse assunto há semanas. Ela confessou que gostaria de sair com uma mulher e ele disse que sempre tinha tido a fantasia de partilhar a companhia de duas mulheres na cama. Eles não eram diferentes de ninguém em nada. Para homens e mulheres, o sexo a três é como o Monte Everest da intimidade de um casal – muitos gostariam de testá-lo e, se não querem, querem saber como funciona. Uma evidente confusão entre o que é erótico e o que se poderá tornar excessivo.

Cláudia também estava interessada por outras razões. Duarte afirmava que não conseguiria ser fiel e ela imaginou que se eles traíssem o seu relacionamento juntos não seria realmente uma traição. Ela nunca tinha pensado que um dia viria a contratar uma prostituta, mas isso permitia-lhes evitar solicitações constrangedoras junto de amigos comuns. Contudo, ela tinha perfeita noção que este tipo de fantasias funciona em espiral crescente e provavelmente as coisas não ficariam por ali.

Como era de se imaginar, Duarte ficou tentado com a sugestão.

- Não é uma má ideia – disse ele, com um sorriso malicioso.

Apesar de ela não estar muito segura se estaria disposta a fazer o que havia sugerido, ele estava tão empolgado que já era tarde demais para mudar de ideias. Após saírem do bar, aceleraram rumo ao apartamento dele, no Tirol. Duarte começou a pesquisar acompanhantes na internet enquanto Cláudia procurava nos classificados dos jornais. No final de uma das páginas, ela encontrou um anúncio de acompanhantes de luxo. Ele ligou de imediato e pediu uma loira “com muita experiência com mulheres”. O preço era 500 reais por hora.

- Nossa! O aluguel do apartamento que divido com minha amiga são 500 reais – murmurou Cláudia entredentes.

Duarte forneceu as informações do cartão de crédito e o seu nome verdadeiro para a pessoa que estava do outro lado da linha. Cláudia ficou incrédula. Ele era uma pessoa conhecida, aquele sotaque era inconfundível mas agia imprudentemente numa cidade conservadora, onde os estrangeiros residentes eram desaprovados com facilidade. Mas Duarte não se importava. Era como se estivesse a pedir uma pizza por telefone. A mulher na outra ponta disse qualquer coisa. Duarte sorriu, desviando o olhar para a sua namorada.

- Fico feliz por saber que sou tão popular – disse Duarte, para a agente das acompanhantes.

Cláudia questionava se a mulher iria espalhar a história para algum colunista social, mas guardou o pensamento para si mesma.

Tinha chegado a hora de se prepararem. Foram para o chuveiro; parecia o mais educado a fazer. Cláudia desejava ter colocado uma lingerie mais provocante. Vestiram roupões. O duche tinha diminuído o efeito da bebida, o que não era necessariamente bom. Duarte acendeu um cigarro e penteou os cabelos com os dedos. Ele abriu uma garrafa de vinho do Porto e colocou um CD dos Massive Attack na aparelhagem sonora. Cláudia aproveitou para diminuir a luminosidade da sala.

Subitamente, o porteiro ligou para o apartamento, para anunciar a chegada da visitante. Cláudia ainda pensou que teria sido mais sensato fazer este programa num motel, ao invés de receberem uma prostituta em casa. Era uma exposição de intimidade bastante arriscada. Ouviu-se uma leve batida na porta. Cláudia sentiu o sangue congelar nas veias, enquanto Duarte deixava a loira oxigenada entrar. Ela aparentava ter perto de trinta anos e ostentava um olhar felino. Tinha seios volumosos mas Cláudia era mais bonita. “Óptimo” – pensou ela para com os seus botões.

Ofereceram-lhe uma bebida e conversaram durante breves minutos, sentados nos sofás da sala. Logo depois, dirigiram-se para o quarto onde Duarte tinha acendido algumas velas com intuito de criar uma atmosfera sensual.

A coisa aconteceu da maneira que se imagina que deve ser. Ele disse para a prostituta que Cláudia nunca tinha estado com uma mulher e pede que ela beije a sua parceira.

- Quero ver – sibilou ele.

É curioso pensar que os diálogos dos filmes pornográficos são estúpidos e, depois, lá estamos nós num filme para adultos na vida real a dizer as mesmas idiotices.

Uma hora e meia depois, a loira levantou-se da cama e saiu. Charlie Sheen sabia o que falava quando disse que não paga a uma prostituta apenas pelo sexo, mas também para que ela se vá embora. Cláudia já tinha ouvido ópera em Milão, os sinos das igrejas parisienses ao amanhecer, mas o som mais doce que escutou foi daquela porta a bater, atrás daquela mulher.

Na manhã seguinte, Duarte levantou-se cedo porque iria ter uma reunião importante com o gerente do banco. Cláudia observou-o da cama e tentou imaginar se a loira iria perceber quem ele era e talvez aproveitar-se da situação.

Quando Cláudia chegou à agência de publicidade onde trabalhava, um colega do departamento criativo perguntou-lhe como tinha sido o serão.

- Legal – disse ela, esboçando um sorriso retorcido.

Ela imaginou que a noite anterior seria apenas o início de um longo e perigoso jogo de contornos perversos. Imediatamente, tentou afastar da sua mente os pensamentos sombrios que ameaçavam atormentá-la.

 

 

A história continua no cabaret ;)

A decisão

28 Mar

Caligrafias transparentes em vidros embaciados, pensamentos redondos, espirais de dúvidas. O tempo escoa-se pela chávena de chá num cubo de açúcar. Observas. O caderno de argolas engole as frases que tinhas preparado. O silêncio esconde-se em cada quadrícula.

A paisagem da janela tem um olhar guloso. Sede de areias suculentas. Fome de praias eternas. Prazer de bússolas sem norte. Mas esperas. O que fazer? Seguir o rasto ou seguir a vela. Navegar através das cadeiras desalinhadas ou soltar as amarras.
Suspiras. Na verdade é simples. Sim, sempre o soubeste. Algures, há o espaço luminoso onde se encontram todos os caminhos.

 

Foto “Looking Outside the Window”: Bambang Indrayoto

Universo paralelo

17 Fev

E por vezes somos tocados. A perceção de uma outra construção, uma linha por detrás das linhas que já conhecemos, um ambiente para além dos traços delineados, uma história que parecemos reconhecer. Ou esperar. Ou sonhar. Não, não um déjà vu, mais uma outra dimensão. Uma nova arquitetura, um outro enredo. Conversas telepáticas entre dois chás e um tilintar de colheres. Movimentos no espaço, dizer o teu nome como uma dança em linguagem gestual de borboletas. Uma história antiga que ambos conhecemos e não contamos. Não temos de fazer nada, não temos de começar nada. Um dia, sim, há muito tempo, esperámo-nos com o anseio dos namorados, tocámo-nos com a intimidade dos amantes, confiámo-nos como só os homens e as mulheres se podem confiar, para além da pele, há muito tempo. Ou num universo paralelo.

 

Imagem: Mattijn

O casaco

6 Jan

A minha sócia, embora bem mais nova do que eu, tinha sem dúvida muito mais experiência no terreno. Veio dizer-me que o casal da mesa do fundo tinha vindo jantar numa “blind date”. Observei-os por uns instantes: eram mais baixos do que a média dos belgas, loiros, de pele clara e roliços. Quase quarentões. Pareciam estar bem um para o outro. Havia outro casal na sala, obviamente casados ou a viverem juntos, trintões, um aspeto mais mediterrânico, mais altos e encorpados, talvez italianos, há muitos italianos na Bélgica. A noite decorria calma. Estava frio. De passagem, reparei nos casacos do bengaleiro da entrada. Curiosamente, os casacos das duas senhoras eram iguais, um modelo da Evam, talvez, compridos, quentes e castanhos.  O casal “italiano” saiu mais cedo. Não comeram sobremesa. Estavam com pressa.

Quando finalmente o casalzinho “blind date” se levantou para sair, a senhora vestiu o casaco que tinha deixado no bengaleiro e daí a segundos percebeu que não era o dela. Este era um pouco maior, embora do mesmo modelo e até da mesma cor… e, sobretudo, não tinha as chaves que tinha trazido no bolso. A única explicação era que a cliente que tinha saído anteriormente tinha trocado de casacos. Não tínhamos evidentemente o contato do casal que saíra mais cedo e supunhamos que quando dessem pela troca, nos telefonariam, mas não tínhamos como os contatar. A senhora mostrava-se cada vez mais preocupada. Ela era florista e as chaves que trazia no bolso do casaco eram da loja, que por sua vez dava acesso ao apartamento em que vivia. Ou seja, sem as chaves não podia entrar em casa. E os parentes mais próximos, onde ela poderia ir passar a noite, viviam mesmo assim afastados. Enquanto ela ficava cada vez mais agitada e preocupada, eu tentava encontrar uma saída, que obviamente não tinha. O acompanhante dizia que se arranjaria uma solução, a senhora não ficaria na rua. Eu cada vez mais preocupada, pedia desculpa, je suis désolée, não sabia o que dizer, até que parei para o olhar. Por trás das palavras de circunstância que repetia, “não se preocupem, arranjaremos uma solução”, os olhos dele sorriam de tal forma que os lábios não conseguiam permanecer sérios mesmo que quisesse. Relaxei.

Ainda antes de fecharmos o restaurante recebemos um telefonema do casal italiano, tinham ido ao cinema e só aí a mulher se tinha apercebido da troca dos casacos ao descobrir as chaves no bolso, embora já antes tivesse sentido que era um pouco apertado. Passariam no dia seguinte para o devolver.

Um ano depois, o casal “blind date” jantava no nosso restaurante. Ternos e cúmplices, estavam ostensivamente a comemorar a data.

de boca para boca

1 Jan

Tinha ficado imediatamente preso nos lábios dela. Dizia as palavras como se tivessem sabor, como se cada sílaba tivesse a pele de uma cereja que nunca chegava a trincar. Tinha lábios de quem poderia sussurrar coisas indizíveis ao ouvido, coisas que o deixariam arrepiado e esfomeado. Depois poderia dizer que era como se sempre se tivessem conhecido e que havia este à-vontade e esta intimidade que ambos sentiam partilhar. Mas na verdade foram os lábios dela, e a fina linha mais clara que os contornava e em que se perdera.