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A que tribo pertences?

23 Abr

as meninas nipónicas a tentarem falar português, na verdade não sei, serão chinesas ou japonesas, recordo tudo o que sei sobre as caraterísticas de ambas, que quase se resume ao formato dos olhos, que talvez até nem seja assim, e o pensamento inpoliticamente correto de que é embaraçoso não sabermos reconhecer uma raça, pensar “são todos iguais”, embora a questão mesmo não está em não se distinguir as diferenças, está no “eles”, e o espanto de um asiático no ocidente, “têm os olhos tão abertos!”, nunca pensaria nesse ponto de vista, pensar no que será, isso de pertencer a uma tribo, de nos depararmos com “os outros”, eu já pertenci a uma tribo, as diferenças não estavam nos olhos, mas no vocabulário, engraçado como as palavras estabelecem fronteiras, uma entoação, uma expressão, e há este continente desconhecido, a escuridão para lá destas paredes, este território vasto lá fora, a rejeitar ou a descobrir

 

 

P.S. as fotos são de um homem e mulher japonês/esa, chinês/esa e coreano/a; alguém quer arriscar “etiquetá-los”?

The biggest fail

21 Abr

Atrapalhei-me a fazer o meu malabarismo do costume… e realmente, devo ter sido despedido. Não sei em que planeta estou, dou um passo fora de casa e tou a levar tiros de todos os lados, num país que diz estar em paz. Levo tiros de tubos de escape, tenho de praticar kung fu para não me roubarem o pão e o trocarem por erva amassada com plástico, vidro e metal, ou pozinhos de flores misturados com resíduos químicos. Os meus olhos são constantemente agredidos por lâmpadas e pixeis. O supermercado lucra, enquanto a mercearia é assaltada porque não tem segurança nem alarmes xpto. E enquanto isto se passava uma escola de dança, música e arte foi destruída pela polícia. E o pior de tudo, é que eu só queria brincar com a Amélie, mas em vez disso estou a falar com uma bola de voleibol com uma maçã nas costas, porque ela está presa numa cidade cheia de camaras fotográficas e ficou viciada. Parece a bateria do meu telemóvel que está sempre a passar radiações às minhas bolinhas.

T. A.

os lápis de cor

12 Abr

Voltar ao tempo dos cadernos de folhas pautadas, a lousa, o giz, as carteiras da escola, os lápis viarco, eu ainda usei penas com bicos que mergulhavam na tinta azul e desenhavam letras de traços não uniformes, com pequenos borrões, ditados de zero erros e redacções com c sobre a primavera e as andorinhas, desenhos de casas com uma porta e duas janelas e fumo a sair pela chaminé, fumo azul, como as nuvens, azuis ou amarelas, o sol de raios e olhos e boca, lá no cimo, a pairar sobre o grande branco da folha, recortado de árvores de troncos castanhos e frondas verdes, e as andorinhas, sim, no imenso branco, duas asas e era a primavera nas flores cor-de-rosa e vermelhas, bem alinhadas pelo caminho que ia ter à porta da casa entreaberta.

Universo paralelo

17 Fev

E por vezes somos tocados. A perceção de uma outra construção, uma linha por detrás das linhas que já conhecemos, um ambiente para além dos traços delineados, uma história que parecemos reconhecer. Ou esperar. Ou sonhar. Não, não um déjà vu, mais uma outra dimensão. Uma nova arquitetura, um outro enredo. Conversas telepáticas entre dois chás e um tilintar de colheres. Movimentos no espaço, dizer o teu nome como uma dança em linguagem gestual de borboletas. Uma história antiga que ambos conhecemos e não contamos. Não temos de fazer nada, não temos de começar nada. Um dia, sim, há muito tempo, esperámo-nos com o anseio dos namorados, tocámo-nos com a intimidade dos amantes, confiámo-nos como só os homens e as mulheres se podem confiar, para além da pele, há muito tempo. Ou num universo paralelo.

 

Imagem: Mattijn

Escrever no café

15 Fev

Durante algum tempo escrevi as minhas páginas matinais logo ao levantar, é uma questão de organização: com a prática da escrita, precisamos apenas de 20 minutos para umas 3 páginas. Mas, se bem que a escrita goste da tranquilidade, pode ser bom mudar a rotina, escrever no café onde tomamos o pequeno almoço, na esplanada onde vamos tomar café ou olhar as ondas. Sobretudo se nos sentimos encalhados. Os textos livres são frequentemente uma escrita de intereseções, pois somos muitas vezes interrompidos. Mas “a escrita é onde eu reúno, onde todas as interrupções estão presentes”. A escrita é inclusiva.

 

Começar sem saber, atirar-se e mergulhar sem saber, onde nascem fontes rebeldes e passeiam cavalos encantados em rotundas flamejantes, não ter a constância, as conversas sobre futebol e a situação, a miséria dos pobres, não saber, mergulhar sem saber, a porta que desliza e se abre, bom-dia, a frescura matinal da rua que entra cheia de promessas, outro dia, sem saber, um outro enredo, uma festa de Carnaval e os olhares que se cruzam na manteiga desse pão e no restolhar da máquina de café quando se aquece o leite até ferver, mergulhar novamente, obrigadíssima, trocam-se as palavras com o esvoaçar das folhas do jornal, o sobrinho direto do Ferreira Neves e a impaciência de querer outra coisa, de calar a mulher, de querer o silêncio e apenas o toque das colheres na chávena, mas não dura, nada dura, a conversa acaba, há sempre outra coisa, uma passagem, uma pausa, o silêncio da buzina do carro e esse burburinho apaziguante da cidade depois das 9. Há sempre uma pausa antes de outra coisa, antes do próximo autocarro, o próximo cliente, o próximo até-amanhã, o próximo sonho e as pétalas da flor em tecido com o botão a condizer.

 

Greentea, hoje

Fotografia: café Mud Dock, Bristol

Eu sou a asa do corvo

27 Nov

Eu sou a asa do corvo que partiu e nunca voltou e afagou os deslizes do tempo como se não houvesse eternidade. Viajou até às portas dos deuses nos confins do reino dos icebergues delapidados de sede e de sono, transbordou na borda do fim do mundo, as penas reluzentes de cristais de neve e o gosto antigo de amoras silvestres nos olhos imortais. A partir daí, ninguém sabe. Ninguém sabe o que há para lá da borda do mundo e da margem das horas. Só a asa do corvo que partiu e nunca voltou.

 

Imagem: Lord of the Rings

Os deuses sem face

24 Nov

O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia que tinha partido em peregrinação ao santuário dos deuses sem face. Eram assim chamados porque nunca ninguém lhes vira o rosto ou o pudera sequer imaginar, nunca ninguém soubera os seus nomes ou a sua história. Apenas se sabia que eram cinco, cinco como os dedos da mão, cinco como os cinco sentires, cinco como tocar, saborear, cheirar, ver e ouvir.

O primeiro deus era o deus das coisas breves, das sensações agrestes e suaves, do que podemos conhecer com a pele e com os poros, e os cabelos, o vento no cais, o espaço entre o ar e o corpo, a frieza da tua escuridão. Era o deus de embalar e afagar e de sermos outra vez crianças. Era o deus dos castores e dos colibris, do algodão e das cerejas.

O segundo deus era o deus dos odores e dos perfumes bravios, cheios, intensos, e também subtis, transparentes e rudes. Era o deus que nos fazia amar e tocar, que nos fazia recordar e chorar, que nos fazia rugir e recuar. Era um deus minucioso e contemplativo, um deus que nos intoxica de prazer e nos turva de luxúria e de querer. Era o deus dos elefantes e das baleias, do almíscar e da orquídea.

O terceiro deus era o deus dos sabores e dos prazeres, de tudo o que nos dá fome e sede, de todos os desejos, do que sonhamos e queremos. É o deus que nos rodeia quando estamos sentados à volta da fogueira numa noite escura, a festejar a comunhão com o coração e o riso. Era um deus folgazão e ciumento. Era o deus das aves do paraíso e das beringelas.

O quarto deus era o deus dos sons e da música, dos rugidos e da espuma, o deus bravio que galopa rochedos e o deus terno que afaga a pele estendida de um tambor depois do pôr-do-sol. Era um deus exigente e devotado, um deus que nos entontece, nos embriaga e nos adormece. Era o deus das borboletas e dos pavões.

O quinto deus era o deus das cores, das formas e das luzes. Um deus que nos surpreende e nos oferece todo o universo, que nos inunda de matizes e de construções, que nos enfeitiça e nos absorve. É o deus dos jogos e das nuvens douradas, das águias, dos tubarões e do peixe-espada. Conta-nos histórias de reis e cavaleiros, de ricos e pobres, de escuridão e de luz. Prende-nos nas cores do amanhecer e quebra-nos nas viagens das descobertas.

Como é que eles surgiram, ninguém sabe, apenas se diz que algures, numa dobra escondida na memória do tempo, algo se moveu. Criou ondas e fogos de artifício, criou êxtase, luz e cor. Algo se pôs em movimento, não se sabe o porquê, nem como e muito menos quando. E desse movimento surgiram os cinco deuses, todas as manifestações de risos e lágrimas, todos os afagos e todas as batalhas, toda a ignorância e toda a sabedoria. E ao longo de milhares de milhões de anos, e mais ainda, os deuses expandiram-se, gozaram, criaram, construiram, destruiram, até que, cansados, como uma criança depois de um dia de brincadeiras, concentraram todos os seus poderes num pequeno cristal que esconderam no mais fundo dos oceanos e deixaram o mundo dissolver-se.  E não se sabe quanto tempo esse cristal esteve no fundo dos mares.

E era esse cristal que a sereia tinha encontrado e vinha trazer ao altar dos deuses sem face. Queria recordar-lhes a matéria de que todos os sonhos são feitos e suplicar-lhes mais uma gota, uma pequena gota de ilusão. E os deuses, despertos pelo som dos seus pés martirizados pelos seixos da praia, abriram o cristal e ofereceram-lhe uma gota do seu imenso poder, o perfume tímido da violeta, o sabor bravio de uma maçã verde, a doçura de uma pena branca e lisa, o som cavo e fundo de um búzio, a visão fugaz de uma estrela cadente. A gota deslizou suavemente pelos dedos da sereia.

texto criado a partir da frase “O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia”

( exercício da sessão 3 do Clube de Escrita Criativa)