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o cinzento é o novo preto

12 Dez

Apesar de Alexandre ter um olho de cada cor, só conseguia ver o mundo numa tonalidade: cinzento. Cinzento claro, cinzento escuro, cinzento assim-assim talvez, cinzento mais coiso e tal, por vezes um cinzento lua profundo, raramente um cinzento sol vivo. Alexandre considerava-se uma pessoa muito pragmática e afirmava perentoriamente que não, não havia necessidade de cor na vida. O cinzento é o novo preto dizia, tem estilo e é conveniente para qualquer situação. Para quê perder tempo a escolher diferentes cores de gravatas ou camisas, para quê perder tempo a observar um pôr-do-sol e as papoilas à solta nos campos? Os impúdicos amores-perfeitos dos canteiros dos jardins municipais eram por ele ignorados e o asfalto e o telemóvel eram tudo o que precisava para circular.

Quando lhe diziam que no mundo há todo o tipo de tonalidades e que as pessoas são diferentes e podem precisar de coisas diferentes, dizia que sim, claro, mas perguntava se não seria mais simples se todos adoptassem a sua visão. E de qualquer forma o cinzento não era de todo básico, pois tinha vários graus e infinitas texturas. E entusiasmava-se a gabar o cinzento cristalino manhã de maio e o cinzento penugento noturno.

Um dia perguntaram-lhe se era feliz. Ele abriu os olhos, um de cada cor, verde e azul, que ele ao olhar ao espelho mal percebia como uma diferente tonalidade de cinzento médio. E disse que sim, que tinha muita qualidade de vida, era muito prático e não perdia tempo com frivolidades e passatempos coloridos.

Ao chegar a casa nessa noite sentou-se no seu sofá cinzento caldeirão a olhar o jornal pousado na mesa à sua frente, num lusco-fusco que geralmente considerava delicioso. Costumava apreciar e relaxar no ambiente minimalista do seu apartamento, mas desta vez um arrepio percorreu-lhe a espinha e sentiu frio. Um frio imenso que percorreu todos os músculos, um a um, e se instalou nos ossos, e que não passou, mesmo depois de um duche bem quente e de se deitar na cama com três edredões em cima. No dia seguinte ligou para a empresa a dizer que estava doente e ficou na cama a tiritar. Ficou a pensar que poderia ficar deitado o tempo que quisesse que ninguém ia notar. Passou um dia, passaram dois, passaram três. Ele só saía da cama para ir à casa de banho.

Ao terceiro dia levantou-se a meio da tarde. Foi tomar um duche, barbeou-se, vestiu a camisa clara quase gelo, o fato cinzento chumbo clássico, e pôs a gravata de riscas diagonais em três tons de cinzento lustroso. Passou pela garagem buscar o seu audi cinza metalizado. Dirigiu-se a um centro comercial muito frequentado. Entrou numa loja de roupas e depois numa agência de viagens. Dirigiu-se a seguir ao aeroporto. Foi primeiro à casa de banho dos homens. Quando fez o check-in vestia umas bermudas e uma camisa tipo havaiana. Não se sabe para onde viajou, apenas que era um lugar quente e com pores-do-sol abrasadores.

Texto produzido a partir da frase de Al Berto: apesar de Alexandre ter um olho de cada cor

Pintura Mondrian, Grey Tree/ Red Tree

Um dos desenhos feitos a canivete

27 Nov

Um dos desenhos feitos a canivete na porta do urinol* fizeste-o depois da alucinação do instante maduro quando sobes as escadas trôpego e te sentas no último degrau, planando sobre a circulação dos pombos que injetam solidões ferozes na praça da câmara, foste ao bar dos anzóis, cobiçaste o copo e o desleixo, prendeste-te na conversa da rapariga de vestido verde, perdeste, sincero, a oportunidade de te curvares sobre ela, de a prenderes e furtares, fugiste-a, viste-te num filme manhoso, sem autor, querias voltar atrás, mas a noite era uma amante infiel, deixou-te no início dos teus pés incongruentes. Querias mostrar o que vales, dizias, couro negro e na pele agarrado um resto da viagem ao sul, lembranças do sal e das noites, e das estrelas a dançar na roda dos suores. Inclinaste-te. As estrelas, onde estão as estrelas a piscar? Não há céu negro, não há chão baço. Se pudesses, sim, equilibrar-te naquela corda que te liga ao outro lado, o outro lado do penhasco e do sonho, atravessar para o outro lado, querias o sul das ondas frescas e das lembranças de tudo o que poderias ter sido. Mas não foi assim.

imagem: porta de WC @ Café Lisboa em Valencia

*verso de Al Berto

 

mais um exercício escrito no café Boémia ;)

Eu sou a asa do corvo

27 Nov

Eu sou a asa do corvo que partiu e nunca voltou e afagou os deslizes do tempo como se não houvesse eternidade. Viajou até às portas dos deuses nos confins do reino dos icebergues delapidados de sede e de sono, transbordou na borda do fim do mundo, as penas reluzentes de cristais de neve e o gosto antigo de amoras silvestres nos olhos imortais. A partir daí, ninguém sabe. Ninguém sabe o que há para lá da borda do mundo e da margem das horas. Só a asa do corvo que partiu e nunca voltou.

 

Imagem: Lord of the Rings

Os deuses sem face

24 Nov

O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia que tinha partido em peregrinação ao santuário dos deuses sem face. Eram assim chamados porque nunca ninguém lhes vira o rosto ou o pudera sequer imaginar, nunca ninguém soubera os seus nomes ou a sua história. Apenas se sabia que eram cinco, cinco como os dedos da mão, cinco como os cinco sentires, cinco como tocar, saborear, cheirar, ver e ouvir.

O primeiro deus era o deus das coisas breves, das sensações agrestes e suaves, do que podemos conhecer com a pele e com os poros, e os cabelos, o vento no cais, o espaço entre o ar e o corpo, a frieza da tua escuridão. Era o deus de embalar e afagar e de sermos outra vez crianças. Era o deus dos castores e dos colibris, do algodão e das cerejas.

O segundo deus era o deus dos odores e dos perfumes bravios, cheios, intensos, e também subtis, transparentes e rudes. Era o deus que nos fazia amar e tocar, que nos fazia recordar e chorar, que nos fazia rugir e recuar. Era um deus minucioso e contemplativo, um deus que nos intoxica de prazer e nos turva de luxúria e de querer. Era o deus dos elefantes e das baleias, do almíscar e da orquídea.

O terceiro deus era o deus dos sabores e dos prazeres, de tudo o que nos dá fome e sede, de todos os desejos, do que sonhamos e queremos. É o deus que nos rodeia quando estamos sentados à volta da fogueira numa noite escura, a festejar a comunhão com o coração e o riso. Era um deus folgazão e ciumento. Era o deus das aves do paraíso e das beringelas.

O quarto deus era o deus dos sons e da música, dos rugidos e da espuma, o deus bravio que galopa rochedos e o deus terno que afaga a pele estendida de um tambor depois do pôr-do-sol. Era um deus exigente e devotado, um deus que nos entontece, nos embriaga e nos adormece. Era o deus das borboletas e dos pavões.

O quinto deus era o deus das cores, das formas e das luzes. Um deus que nos surpreende e nos oferece todo o universo, que nos inunda de matizes e de construções, que nos enfeitiça e nos absorve. É o deus dos jogos e das nuvens douradas, das águias, dos tubarões e do peixe-espada. Conta-nos histórias de reis e cavaleiros, de ricos e pobres, de escuridão e de luz. Prende-nos nas cores do amanhecer e quebra-nos nas viagens das descobertas.

Como é que eles surgiram, ninguém sabe, apenas se diz que algures, numa dobra escondida na memória do tempo, algo se moveu. Criou ondas e fogos de artifício, criou êxtase, luz e cor. Algo se pôs em movimento, não se sabe o porquê, nem como e muito menos quando. E desse movimento surgiram os cinco deuses, todas as manifestações de risos e lágrimas, todos os afagos e todas as batalhas, toda a ignorância e toda a sabedoria. E ao longo de milhares de milhões de anos, e mais ainda, os deuses expandiram-se, gozaram, criaram, construiram, destruiram, até que, cansados, como uma criança depois de um dia de brincadeiras, concentraram todos os seus poderes num pequeno cristal que esconderam no mais fundo dos oceanos e deixaram o mundo dissolver-se.  E não se sabe quanto tempo esse cristal esteve no fundo dos mares.

E era esse cristal que a sereia tinha encontrado e vinha trazer ao altar dos deuses sem face. Queria recordar-lhes a matéria de que todos os sonhos são feitos e suplicar-lhes mais uma gota, uma pequena gota de ilusão. E os deuses, despertos pelo som dos seus pés martirizados pelos seixos da praia, abriram o cristal e ofereceram-lhe uma gota do seu imenso poder, o perfume tímido da violeta, o sabor bravio de uma maçã verde, a doçura de uma pena branca e lisa, o som cavo e fundo de um búzio, a visão fugaz de uma estrela cadente. A gota deslizou suavemente pelos dedos da sereia.

texto criado a partir da frase “O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia”

( exercício da sessão 3 do Clube de Escrita Criativa)

Sessão do Clube de Escrita

23 Nov

CEC sessão 3: escrever com todos os sentidos (pele, língua, ouvidos, olhos, nariz… )

1. Exercício de aquecimento:

listar 10 substantivos

listar 10 adjetivos

pensar numa profissão e listar 10 verbos relacionados com essa profissão

- unir um substantivo a um adjetivo e a um verbo, a partir daí redigir uma frase

- repetir o processo para a construção de 5 frases

2. Exercício de escrita “sensorial”.

Escolher uma das 5 frases. A partir daí, redigir um texto o mais livremente possível, tentando contudo exprimir um universo plurissensorial (por vezes temos tendência a só utilizar a visão)

 

TPC Continuar uma das frases seguintes:

Eu sou a asa do corvo que partiu e nunca voltou

Por favor não esprema o…

Aprendi a fazer fogo….

Um dos desenhos feitos a canivete na porta do urinol….

A viagem

29 Mai


Foi provavelmente a sua primeira grande viagem iniciática.

Era aluna de yoga num centro budista do Porto e nesse ano organizaram uma viagem a uma mosteiro em França, nos Alpes Marítimos, para celebrar o Losar, o Ano Novo Tibetano, que coincidia com as férias do Carnaval. Nesse ano era finalista de Línguas e Literaturas Modernas e dava aulas de português e francês em Leça, por isso não só teria disponibilidade de tempo como financeira. Ia viajar com pessoas ligadas ao centro do Porto, de Lisboa e do Algarve. Foram alugados dois autocarros que os transportariam para as montanhas perto de Nice.Não ficaram muitas memórias da viagem de autocarro, excepto, talvez, as longas conversas com uma colega das aulas de yoga, muito analítica e estudante de Filosofia.

Chegaram ao mosteiro ao fim da tarde e foram acolhidos pelos tons quentes da luz do sol, por um céu azul e límpido e pelos habitantes e visitantes do mosteiro – belgas, franceses,alemães, portugueses, espanhóis. Estariam mais de duzentas pessoas, não contando as dezenas de crianças, e grande parte ficou instalada numa grande sala com cheiro a incenso e pavimento de madeira lustroso, por cima de uma carpintaria. Cá fora ficavam os sapatos sujos de lama. Mais tarde percebeu que além de dormitório, a sala funcionava como uma espécie de templo. Já estava habituada a ouvir recitar alguns mantras, nas sessões de meditação, mas era bastante diferente participar nos rituais e orações tibetanas juntamente com algumas centenas de pessoas. Por vezes era hipnotizador.

Com a roupa de inverno, tinha também levado na bagagem uma tigela e uma colher, que faziam parte da lista de coisas a não esquecer, fornecida pelo centro. Formavam-se pelos menos duas grandes filas em frente de duas enormes panelas de sopa, feita de legumes claramente biológicos, com cenouras mal cozidas cortadas às rodelas com a pele. Estas cenouras mal cozidas acompanhariam todas as refeições. O pão era escuro e teria alguns dias. Mas havia queijo fresco, produzido no próprio mosteiro. Disseram-lhe que no ano anterior havia mais variedade de alimentos, mais leite e ovos, pois tinham vacas e galinhas, mas o mestre achou que os habitantes do mosteiro deveriam concentrar-se mais na prática e não em serem agricultores e pastores. Também não imaginava que juntamente com novos rituais e comida diferente, viria uma nova linguagem. A prática, praticar, parecia algo de muito importante para todos.  Mas antes de tudo isso, ainda houve uma primeira manhã. Tinha chegado ao mosteiro no final do dia, com os tons quentes do sol e campos verdes. Na manhã seguinte, ao abrir a janela do dormitório, descobriu que os campos estavam agora imaculadamente brancos, o céu encoberto, as árvores serenas e majestosas. Nada a tinha preparado para aquela paisagem, e susteve a respiração. Era a primeira vez que via neve! Depois também descobriu que a neve significava mais lama e os caminhos quase intransitáveis. Ou então escorregadelas perigosas quando a neve se tornava gelo. O pequeno-almoço desse dia traria mais uma surpresa: as papas. Abominava papas. E aquelas pareciam especialmente desenxabidas e pastosas. Experimentou uma colherada. Execrável. Não conseguiu comer mais. Havia chá. Mas não havia pão. Percebeu que tinha de guardar o pão que acompanhava as outras refeições para o pequeno-almoço.

Os dias seguiram-se rigorosamente programados. Oração da manhã às 7h, pequeno-almoço, intervalo para actividades pessoais, ensinamento às 11h, almoço às 13h, intervalo, yoga ou outra prática à tarde, prática à volta do stupa, orações, jantar, orações, ensinamento. O ambiente e as actividades eram tão diferentes daquelas a que estavam habituados, que as resistências começaram a aumentar entre alguns dos alunos de yoga. Achavam que pelo menos deveriam ter sido avisados quanto às refeições (sim, claro, disseram que seriam vegetarianas, mas não espartanas), para poderem levar uma mochila cheia de… bolachas. E as prosternações! Nada poderia estar mais afastado do modo de estar ocidental. Confiavam ao Nuno, que secretariava as aulas de yoga, todas as reclamações, ao que ele respondia, placidamente: “mas aquilo que para vocês é estranho, para outros é normal”. Não era resposta, e o mau humor dela cresceu no último dia do ano lunar, que por acaso era também o dia do seu aniversário. Talvez fosse isso, o facto de ser o “seu” dia de aniversário, que aumentava a resmunguice – não teria o bolo, nem as velas, nem os presentes e os parabéns da família e dos amigos… Nesse dia tudo parecia mais negro e enlameado, a comida mais rude, as práticas especialmente estranhas, a ignorância mais densa.  Toda a vida procurara algo. Respostas. Saber quem era e o que tudo isto é. E todas as pessoas à sua volta pareciam conhecer um segredo que não queriam partilhar. E mesmo o Nuno parecia menos paciente.

Mas no dia seguinte estava sol e voltou a sorrir. E o pão escuro ao pequeno-almoço sabia-lhe bem com o chá sem açúcar e sabor a ervas aromáticas. Tomilho, talvez. O Tenzin, um dos discípulos mais próximos do mestre, sentou-se num prado verde com uma roda de alunos à sua volta e falou como só os poetas falam. E tudo ficou claro.

Pintura: Arrivée, de Yahne le Tourmelin

O meu quarto

11 Fev

O meu quarto

era onde eu guardava

os meus segredos

tapeçarias em cadernos A/4

conversas

entremeadas de música FM

imagens recortadas de revistas

nas paredes brancas

sonhavam as nuvens

os peixes do fundo do mar

e os cavalos a galope