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Encontro

19 Mar

Não sei quantos vamos ser, penso que cinco. Cinco pessoas ligadas por algo mágico e maravilhoso. Um laço invisível que nos une, que nos puxa para o mesmo lado.

Como é bom encontrar pessoas que se encontram nesse lado. No planeta onde vivo existem muitos laços invisíveis. Uns coloridos, outros belos, outros cordiais, outros mesquinhos, outros falsos, outros mil. Mas não existe nenhum igual ao que me liga a este lado.

Eu gosto deste lado. Aqui posso viver cheia de mim, dos sonhos que sonhei, dos sonhos que não cumpri. Aqui posso ser só eu, sem servir as vontades de alguém, porque estou de igual para igual, com pessoas que habitam planetas diferentes, mas unidas por o mesmo laço invisível.

Apesar de invisível eu sei de que é feito esse laço. É feito de letras. Letras que formam palavras. Palavras que criam frases. Frases que inventam uma história. Essa história vai desencadear emoções. E haverá algo que encante mais que isso? Não interessa que nos faça correr uma lágrima, que nos arranque um sorriso ou que nos cause angústia… O que interessa é que mexe, para além da compreensão de cada um.

Agradeço por aqui estar, agradeço por quem puxou o laço para me trazer para este lado, agradeço por estar junto de vocês, por estar junto de mim…

Clara Cunha

15 de Março, jantar “literário”

Escrever no café

15 Fev

Durante algum tempo escrevi as minhas páginas matinais logo ao levantar, é uma questão de organização: com a prática da escrita, precisamos apenas de 20 minutos para umas 3 páginas. Mas, se bem que a escrita goste da tranquilidade, pode ser bom mudar a rotina, escrever no café onde tomamos o pequeno almoço, na esplanada onde vamos tomar café ou olhar as ondas. Sobretudo se nos sentimos encalhados. Os textos livres são frequentemente uma escrita de intereseções, pois somos muitas vezes interrompidos. Mas “a escrita é onde eu reúno, onde todas as interrupções estão presentes”. A escrita é inclusiva.

 

Começar sem saber, atirar-se e mergulhar sem saber, onde nascem fontes rebeldes e passeiam cavalos encantados em rotundas flamejantes, não ter a constância, as conversas sobre futebol e a situação, a miséria dos pobres, não saber, mergulhar sem saber, a porta que desliza e se abre, bom-dia, a frescura matinal da rua que entra cheia de promessas, outro dia, sem saber, um outro enredo, uma festa de Carnaval e os olhares que se cruzam na manteiga desse pão e no restolhar da máquina de café quando se aquece o leite até ferver, mergulhar novamente, obrigadíssima, trocam-se as palavras com o esvoaçar das folhas do jornal, o sobrinho direto do Ferreira Neves e a impaciência de querer outra coisa, de calar a mulher, de querer o silêncio e apenas o toque das colheres na chávena, mas não dura, nada dura, a conversa acaba, há sempre outra coisa, uma passagem, uma pausa, o silêncio da buzina do carro e esse burburinho apaziguante da cidade depois das 9. Há sempre uma pausa antes de outra coisa, antes do próximo autocarro, o próximo cliente, o próximo até-amanhã, o próximo sonho e as pétalas da flor em tecido com o botão a condizer.

 

Greentea, hoje

Fotografia: café Mud Dock, Bristol

De olhos fechados

15 Dez


Caí num imenso buraco, disseste, gusano intacto dentro do mezcal ardente, rompi as lianas e soltei as estrofes, dediquei a minha canção ao vapor e saí apressado da autoestrada, antes que a verticalidade me atraísse. Sempre a fundo, derrapei em espirais de fumo e de cor, viagem sem luz e sem medo ao centro de todo o perímetro. E vi-me. A caçar sozinho, entre folhas de agave e de afectos, piloto de outra fronteira, pioneiro de um novo sistema estrelar. Derrapagem translúcida, peguei-te na última sensação, viragem em torno de nós. E sorriste. De olhos fechados seguiste a meu lado e trocámos transpirações e deslizes. Senti-me vir ao de cima e por pouco não respirava. Desabafo. Colheste-me no último momento, a última gota, o último sentido. Não vivo sem ti.

deram-me o lado molhado da casa para habitar

14 Dez

deram-me o lado molhado da casa para habitar*

o lado das coisas escuras e pegajosas, com líquenes verdes e sombras fugidias

deixaram-me ali porque não sabiam o que fazer comigo ou cansaram-se de tentar

pelo menos ali podia seguir a dança dos meus dedos e vaguear pelas masmorras desenhadas nas paredes roídas

podia raspar o resto de cal e lamber a transpiração da pedra fria

a parca luz mal conseguia trespassar as grades de ferro carcomido

e estava bem, não precisava de claridade

queria só a escuridão das noites sepultadas na sofreguidão dos incêndios recusados

 

soltava sons guturais sem eco e sem retorno enquanto polia fixamente o tampo da mesa de madeira esventrada

rodeava-lhe as pernas e escondia os meus segredos nas suas pregas

 

mas a maior parte do tempo apenas me escondia no canto mais desolado, escondia-me das sombras e dos gemidos que me procuravam

conhecia-lhes o toque e parava a respiração

pensei que se não respirasse não me reconheceriam, e aprendi a não respirar durante muito tempo

 

podia ficar dias sem respirar

e semanas sem me mexer

as sombras acabavam por se ir embora

durante uns momentos pensava que estava tudo bem e que, talvez, eu pudesse levantar-me e colocar-me sobre a mesa e aproximar a boca das grades e aspirar o ar, a clareza que estava lá fora

engolir os cheiros e as neblinas

e se aspirasse mais havia esta embriaguez boa que me ocupava a cabeça e anestesiava a garganta

e durante uns momentos até percebia sonhos

de pés descalços a caminhar na relva, de sementes preguiçosas a borbulhar na terra, de asas a riscar o espaço, de esboços suaves de bailados vibrantes e inimagináveis

por momentos tinha a espuma do rasto das manhãs nos meus lábios e o bater de voos transparentes nos meus ouvidos

e um cavalo selvagem galopava no meu peito e rugia vitorioso

o meu coração tinha o som dos cascos a bater na terra e arrastava uma tempestade

 

 

*verso de Al Berto

o cinzento é o novo preto

12 Dez

Apesar de Alexandre ter um olho de cada cor, só conseguia ver o mundo numa tonalidade: cinzento. Cinzento claro, cinzento escuro, cinzento assim-assim talvez, cinzento mais coiso e tal, por vezes um cinzento lua profundo, raramente um cinzento sol vivo. Alexandre considerava-se uma pessoa muito pragmática e afirmava perentoriamente que não, não havia necessidade de cor na vida. O cinzento é o novo preto dizia, tem estilo e é conveniente para qualquer situação. Para quê perder tempo a escolher diferentes cores de gravatas ou camisas, para quê perder tempo a observar um pôr-do-sol e as papoilas à solta nos campos? Os impúdicos amores-perfeitos dos canteiros dos jardins municipais eram por ele ignorados e o asfalto e o telemóvel eram tudo o que precisava para circular.

Quando lhe diziam que no mundo há todo o tipo de tonalidades e que as pessoas são diferentes e podem precisar de coisas diferentes, dizia que sim, claro, mas perguntava se não seria mais simples se todos adoptassem a sua visão. E de qualquer forma o cinzento não era de todo básico, pois tinha vários graus e infinitas texturas. E entusiasmava-se a gabar o cinzento cristalino manhã de maio e o cinzento penugento noturno.

Um dia perguntaram-lhe se era feliz. Ele abriu os olhos, um de cada cor, verde e azul, que ele ao olhar ao espelho mal percebia como uma diferente tonalidade de cinzento médio. E disse que sim, que tinha muita qualidade de vida, era muito prático e não perdia tempo com frivolidades e passatempos coloridos.

Ao chegar a casa nessa noite sentou-se no seu sofá cinzento caldeirão a olhar o jornal pousado na mesa à sua frente, num lusco-fusco que geralmente considerava delicioso. Costumava apreciar e relaxar no ambiente minimalista do seu apartamento, mas desta vez um arrepio percorreu-lhe a espinha e sentiu frio. Um frio imenso que percorreu todos os músculos, um a um, e se instalou nos ossos, e que não passou, mesmo depois de um duche bem quente e de se deitar na cama com três edredões em cima. No dia seguinte ligou para a empresa a dizer que estava doente e ficou na cama a tiritar. Ficou a pensar que poderia ficar deitado o tempo que quisesse que ninguém ia notar. Passou um dia, passaram dois, passaram três. Ele só saía da cama para ir à casa de banho.

Ao terceiro dia levantou-se a meio da tarde. Foi tomar um duche, barbeou-se, vestiu a camisa clara quase gelo, o fato cinzento chumbo clássico, e pôs a gravata de riscas diagonais em três tons de cinzento lustroso. Passou pela garagem buscar o seu audi cinza metalizado. Dirigiu-se a um centro comercial muito frequentado. Entrou numa loja de roupas e depois numa agência de viagens. Dirigiu-se a seguir ao aeroporto. Foi primeiro à casa de banho dos homens. Quando fez o check-in vestia umas bermudas e uma camisa tipo havaiana. Não se sabe para onde viajou, apenas que era um lugar quente e com pores-do-sol abrasadores.

Texto produzido a partir da frase de Al Berto: apesar de Alexandre ter um olho de cada cor

Pintura Mondrian, Grey Tree/ Red Tree

Um céu vasto e branco

11 Dez

Texto 1 cenário

Um céu vasto e branco

Um mar plano e agreste, silencioso

A areia molhada e insistente, com cheiro a sal e suor

A prancha moribunda, naufragada nos seixos, por entre estrelas e algas verdes

Texto 2 personagem

Ela fita o horizonte agreste e plano. Nela paira um silêncio insistente e molhado. A pergunta, branca, debate-se entre seixos, estrelas e algas. Precisava de respostas. E o horizonte apenas lhe devolvia o olhar moribundo.Era muito nova para desistir. Era forte, tinha de lutar. Pelos seus sonhos, para continuar viva, para ser feliz. Sempre fora atrás daquilo que ambicionava, sempre dera tudo por aquilo em que acreditava. Sal, suor, lágrimas, risos. Determinada. Sempre disseram que ela era muito determinada. Fora a mais jovem surfista a atingir os primeiros lugares dos campeonatos mundiais. Construíra uma reputação de coragem e invencibilidade, sempre difícil para qualquer mulher num mundo desportivo essencialmente masculino. O mar era o seu deus e o seu sol e o seu chão. A dedicação ao seu deus era total. Fizera de si uma máquina bem treinada. Deixara para trás família, amigos, namorados, sempre à procura da próxima onda, do próximo encontro com a própria vida. Mas agora a máquina falhava. Sempre se considerara invencível, mas agora precisava de uma coragem que não sabia se tinha. A palavra era pesada e fria: cancro. E de repente não tinha chão, não tinha certezas. O horizonte fitava-a devolvendo-lhe o silêncio e a interrogação.

Exercício (cenário):

A nossa tendência natural seria descrever as personagens das fotografias e inventar uma história ou biografia. No entanto, o que se pretende em primeiro lugar é que se descreva o local onde está a personagem. O que é, como é, cores, cheiros, o que aquilo te sugere.
Texto 1.
Depois de o fazer, descreve a pessoa. Podes fazer a ligação entre os dois textos, repetindo expressões e adjectivos.
Texto 2.

No texto anterior, Telefonema, segui as indicações do exercício concebido pelo Pedro Ferreira, mas sem passar pelas etapas formalmente. Neste texto achei que valia mesmo a pena seguir as indicações  e ir buscar adjetivos e mesmo ideias impregnadas ou sugeridas pelo texto 1 para a construção da personagem.  Gostei.

Telefonema

11 Dez

Um quarto de mansarda, prateleiras com livros e algumas recordações de viagem, fotografias a preto e branco da Inês e malas cor de savana prontas a partir… Cinzeiros cheios de beatas, garrafas de whisky vazias. Um cheiro desgastado de álcool, tabaco e de homem. Estavas pronto para sair. Adormeceste à espera do telefonema. Tinhas tomado um duche, tinhas feito a barba, tinhas penteado os cabelos com os dedos em frente ao espelho. Os cabelos fartos e escuros e o teu sorriso sedutor ainda te davam um ar de mau rapaz q.b., acentuado pelo brinco na orelha e os fios no pescoço. Claro, a barriguinha confortável não condizia, mas fazia-te parecer menos perigoso… excepto quando os teus olhos quase pretos fugiam à deriva, pareciam ver outros horizontes, embora provavelmente apenas estivessem à procura de uma saída. Repórter, fugitivo e mentiroso crónico, poderias ter colocado na tua carteira profissional.

Acordaste com o toque do telemóvel. Pegaste nele, levantaste-te e esperaste para a voz não sair empastada.

 

- Sim, Marta?

- Não, sou eu, pai, estou a usar o telemóvel da mãe. Olha, já chegamos, a viagem correu muito bem.

- Sim? Que horas são aí?

- Quase meia-noite.

- Como está o tempo?

- Frio. E aí?

- Continua bom tempo.

- Estás bem, pai?

- Sim, estou ótimo. Amanhã parto para a Madeira em trabalho.

- Vê lá se te portas bem. Não saíste hoje, pois não?

- Não, fiquei em casa.

- Portas-te bem?

- Claro, não te preocupes. E tu, tem juízo!

- Tenho sempre juízo. Vou desligar, depois falamos.

- Beijinhos.

- Beijinhos.

Mantiveste o telemóvel no ouvido como se quisesses dizer mais alguma coisa. Ela desligara. Ficaste alguns minutos parado. Pousaste finalmente o telemóvel, vestiste o blusão de couro. Verificaste se tinhas as chaves e a carteira. Desceste as escadas. Pegaste no capacete que estava no hall de entrada. Saíste pela porta de ligação com a garagem. Puseste a moto em andamento enquanto a porta se abria. Não sabias para onde ias. Só não querias pensar em nada.

 

Produção de texto tendo como base o cenário (a partir da fotografia) para chegar à personagem. Exercício concebido por Pedro Ferreira.