Arquivo | Novembro, 2011

O Mito do Herói e a Jornada do Escritor

29 Nov

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O livro de Joseph Campbell, “The Hero with a Thousand Faces” e as ideias veiculadas pelo seu autor, tiveram uma influência inegável na escrita de muitas histórias que fazem parte do nosso moderno mundo audio-visual. Ao estudar a mitologia de diversas tradições e civilizações, Joseph Campbell pôs em evidência um padrão comum a todas as histórias arquetípicas que usam um herói/heroína como personagem central de uma grande aventura. Eis as etapas da Jornada do Herói, que encontraremos em muitos contos, histórias e filmes, sendo talvez um caso paradigmático a saga da Guerra das Estrelas:

1. Em casa: o herói é apresentado no seu mundo “normal”

Este é um traço comum a muitas histórias e filmes. O contraste entre a vida vulgar do herói e o mundo e feitos fora do comum de que vai ser o protagonista, é criado primeiramente pela apresentação do mundo em que vive em toda a sua “ordinariedade”. O herói aparece inocente, ou desconfortável ou inconsciente. Tal como Luke Skywalker, que se aborrece de morte na quinta dos tios antes de se tornar um herói de dimensão intergalática.

2. O apelo da aventura

Ao herói é apresentado um problema, um desafio, uma aventura. Na Guerra das Estrelas, é a mensagem holográfica da princesa Leia, nas histórias de detetives, a apresentação de um caso, nas histórias românticas, o encontro com alguém especial, mas frequentemente irritante, com quem a/o protagonista se vai cruzar/bater ao longo da história.

3. A recusa: o herói relutante

Há frequentemente uma recusa, uma hesitação, por parte do herói ou de alguém próximo. O medo do desconhecido, a desconfiança em relação ao seu próprio valor ou coragem podem ser os obstáculos aqui. Frequentemente surge um acontecimento dramático que motiva o herói e deita por terra a relutância inicial. Luke recusa a proposta de Obi Wan mas ao voltar para casa, encontra os tios chacinados pelas tropas do Imperador. Não lhe restam então dúvidas..

4. Encontro com o mentor (o homem ou a mulher sábios)

O mentor em quem o herói confia poderá dar conselhos, mas por vezes também uma arma, um objeto mágico, etc. Obi Wan dá a Luke o sabre de luz do pai. Teseu recebe o fio de Ariadne. O mentor vai deixar o herói prosseguir a sua aventura. Em certos casos, surge em momentos-chave, para dar novo impulso à narrativa.

5. O herói passa o primeiro portal

O herói passa o limiar da porta do seu mundo habitual, física ou psicologicamente. A aventura começa e não há como voltar atrás. Entra na nave espacial, aceita um encontro com um desconhecido, aceita o caso da mulher desaparecida.

6. Desafios – os aliados e os inimigos.

Ao sair do seu universo habitual, o herói é confrontado com desafios. Ao tentar ultrapassá-los, faz aliados e inimigos. Os desafios fazem parte do seu treino. Neles mostra o seu valor ou a sua insegurança. Nos westerns, a cena do saloon. Em A Guerra das Estrelas, o episódio onde Luke encontra Han Solo.

7. O herói alcança a caverna mais negra ou profunda

O herói chega finalmente ao lugar mais perigoso, em que o objeto da procura está escondido. O herói vai ao inferno buscar o seu amado/a, entra numa gruta para lutar contra o dragão e ganhar um tesouro ou a mão da donzela ou enfrenta o Minotauro. Pode ser ainda o confronto psicológico com os medos mais profundos ou outra questão interior.

8. O herói enfrenta o supremo desafio

Frequentemente o supremo desafio é a própria morte. É o momento em que o herói chega completamente ao fundo, e duvidamos se ele vai conseguir salvar-se. O momento em que o herói fica tanto tempo debaixo de água que duvidamos que venha à superfície, o momento em que E.T parece ter morrido na operação. É um momento crítico, de morte e ressurreição e um elemento chave em qualquer mito. A audiência identifica-se com o herói e ressuscita, revitaliza-se com o retorno do mundo dos mortos.

É o clímax de todos os ritos de passagem em que os iniciados sofrem uma morte temporária para renascerem com mais vitalidade. Nunca nos sentimos tão vivos como quando pensamos que vamos morrer.

9. O herói obtém a recompensa

Depois de ter derrotado o dragão, o minotauro, depois de ter sobrevivido à própria morte, o herói toma posse daquilo que veio buscar. A espada, o Graal, o elixir, a donzela, a coragem, a dignidade, a paz.

Quando a recompensa é o amor personificado por uma mulher (ou homem no caso de uma heroína), esta/e transforma-se, refletindo uma nova compreensão do sexo oposto por parte do herói no final da aventura.

10. O caminho de regresso

O herói ainda não saiu da floresta. As forças antagonistas ainda podem vir atrás dele para um último sobressalto ou ataque. Os deuses a quem roubou a jóia fazem explodir a caverna e é uma última fuga para a salvação. .

11. Ressurreição

O herói emerge do universo paralelo/ mundo especial transformado pela sua experiência. É uma repetição da cena morte/ sobrevivência da etapa 8. Uma batalha final na Guerra das Estrelas, a última corrida para ultrapassar o abismo que separa definitivamente o herói do seu opositor.

12. O regresso com o elixir

O herói volta à sua vida normal ou continua a jornada, com o elixir, o amor, a coragem, a lição que aprendeu. Transforma o mundo à sua volta com esse elixir, essa coragem, esse amor, essa experiência. Ou tem apenas uma boa história para contar.

(adaptação de um trabalho de Christopher Vogler)

Pintura de Jia Lu

as nossas histórias

29 Nov

There are only two or three human stories, and they go on repeating themselves as fiercely as if they had never happened before. Willa Cather

 

pintura de Montserrat Gudiol

 

 

Um dos desenhos feitos a canivete

27 Nov

Um dos desenhos feitos a canivete na porta do urinol* fizeste-o depois da alucinação do instante maduro quando sobes as escadas trôpego e te sentas no último degrau, planando sobre a circulação dos pombos que injetam solidões ferozes na praça da câmara, foste ao bar dos anzóis, cobiçaste o copo e o desleixo, prendeste-te na conversa da rapariga de vestido verde, perdeste, sincero, a oportunidade de te curvares sobre ela, de a prenderes e furtares, fugiste-a, viste-te num filme manhoso, sem autor, querias voltar atrás, mas a noite era uma amante infiel, deixou-te no início dos teus pés incongruentes. Querias mostrar o que vales, dizias, couro negro e na pele agarrado um resto da viagem ao sul, lembranças do sal e das noites, e das estrelas a dançar na roda dos suores. Inclinaste-te. As estrelas, onde estão as estrelas a piscar? Não há céu negro, não há chão baço. Se pudesses, sim, equilibrar-te naquela corda que te liga ao outro lado, o outro lado do penhasco e do sonho, atravessar para o outro lado, querias o sul das ondas frescas e das lembranças de tudo o que poderias ter sido. Mas não foi assim.

imagem: porta de WC @ Café Lisboa em Valencia

*verso de Al Berto

 

mais um exercício escrito no café Boémia ;)

Eu sou a asa do corvo

27 Nov

Eu sou a asa do corvo que partiu e nunca voltou e afagou os deslizes do tempo como se não houvesse eternidade. Viajou até às portas dos deuses nos confins do reino dos icebergues delapidados de sede e de sono, transbordou na borda do fim do mundo, as penas reluzentes de cristais de neve e o gosto antigo de amoras silvestres nos olhos imortais. A partir daí, ninguém sabe. Ninguém sabe o que há para lá da borda do mundo e da margem das horas. Só a asa do corvo que partiu e nunca voltou.

 

Imagem: Lord of the Rings

Os deuses sem face

24 Nov

O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia que tinha partido em peregrinação ao santuário dos deuses sem face. Eram assim chamados porque nunca ninguém lhes vira o rosto ou o pudera sequer imaginar, nunca ninguém soubera os seus nomes ou a sua história. Apenas se sabia que eram cinco, cinco como os dedos da mão, cinco como os cinco sentires, cinco como tocar, saborear, cheirar, ver e ouvir.

O primeiro deus era o deus das coisas breves, das sensações agrestes e suaves, do que podemos conhecer com a pele e com os poros, e os cabelos, o vento no cais, o espaço entre o ar e o corpo, a frieza da tua escuridão. Era o deus de embalar e afagar e de sermos outra vez crianças. Era o deus dos castores e dos colibris, do algodão e das cerejas.

O segundo deus era o deus dos odores e dos perfumes bravios, cheios, intensos, e também subtis, transparentes e rudes. Era o deus que nos fazia amar e tocar, que nos fazia recordar e chorar, que nos fazia rugir e recuar. Era um deus minucioso e contemplativo, um deus que nos intoxica de prazer e nos turva de luxúria e de querer. Era o deus dos elefantes e das baleias, do almíscar e da orquídea.

O terceiro deus era o deus dos sabores e dos prazeres, de tudo o que nos dá fome e sede, de todos os desejos, do que sonhamos e queremos. É o deus que nos rodeia quando estamos sentados à volta da fogueira numa noite escura, a festejar a comunhão com o coração e o riso. Era um deus folgazão e ciumento. Era o deus das aves do paraíso e das beringelas.

O quarto deus era o deus dos sons e da música, dos rugidos e da espuma, o deus bravio que galopa rochedos e o deus terno que afaga a pele estendida de um tambor depois do pôr-do-sol. Era um deus exigente e devotado, um deus que nos entontece, nos embriaga e nos adormece. Era o deus das borboletas e dos pavões.

O quinto deus era o deus das cores, das formas e das luzes. Um deus que nos surpreende e nos oferece todo o universo, que nos inunda de matizes e de construções, que nos enfeitiça e nos absorve. É o deus dos jogos e das nuvens douradas, das águias, dos tubarões e do peixe-espada. Conta-nos histórias de reis e cavaleiros, de ricos e pobres, de escuridão e de luz. Prende-nos nas cores do amanhecer e quebra-nos nas viagens das descobertas.

Como é que eles surgiram, ninguém sabe, apenas se diz que algures, numa dobra escondida na memória do tempo, algo se moveu. Criou ondas e fogos de artifício, criou êxtase, luz e cor. Algo se pôs em movimento, não se sabe o porquê, nem como e muito menos quando. E desse movimento surgiram os cinco deuses, todas as manifestações de risos e lágrimas, todos os afagos e todas as batalhas, toda a ignorância e toda a sabedoria. E ao longo de milhares de milhões de anos, e mais ainda, os deuses expandiram-se, gozaram, criaram, construiram, destruiram, até que, cansados, como uma criança depois de um dia de brincadeiras, concentraram todos os seus poderes num pequeno cristal que esconderam no mais fundo dos oceanos e deixaram o mundo dissolver-se.  E não se sabe quanto tempo esse cristal esteve no fundo dos mares.

E era esse cristal que a sereia tinha encontrado e vinha trazer ao altar dos deuses sem face. Queria recordar-lhes a matéria de que todos os sonhos são feitos e suplicar-lhes mais uma gota, uma pequena gota de ilusão. E os deuses, despertos pelo som dos seus pés martirizados pelos seixos da praia, abriram o cristal e ofereceram-lhe uma gota do seu imenso poder, o perfume tímido da violeta, o sabor bravio de uma maçã verde, a doçura de uma pena branca e lisa, o som cavo e fundo de um búzio, a visão fugaz de uma estrela cadente. A gota deslizou suavemente pelos dedos da sereia.

texto criado a partir da frase “O telhado silencioso abafou os passos miúdos da sereia”

( exercício da sessão 3 do Clube de Escrita Criativa)

Escrever

23 Nov

Go to the edge of the cliff and jump off. Build your wings on the way down.
Ray Bradbury, Brown Daily Herald
(24 March 1995)

Sessão do Clube de Escrita

23 Nov

CEC sessão 3: escrever com todos os sentidos (pele, língua, ouvidos, olhos, nariz… )

1. Exercício de aquecimento:

listar 10 substantivos

listar 10 adjetivos

pensar numa profissão e listar 10 verbos relacionados com essa profissão

- unir um substantivo a um adjetivo e a um verbo, a partir daí redigir uma frase

- repetir o processo para a construção de 5 frases

2. Exercício de escrita “sensorial”.

Escolher uma das 5 frases. A partir daí, redigir um texto o mais livremente possível, tentando contudo exprimir um universo plurissensorial (por vezes temos tendência a só utilizar a visão)

 

TPC Continuar uma das frases seguintes:

Eu sou a asa do corvo que partiu e nunca voltou

Por favor não esprema o…

Aprendi a fazer fogo….

Um dos desenhos feitos a canivete na porta do urinol….