Arquivo | Abril, 2011

Cortar legumes

27 Abr

O contraste ajuda a criar interesse pela narrativa – acentua a tensão através de antíteses, um crescendo na narração e descrições concretas e precisas.

Exercício: descrever uma pessoa a cortar legumes.

O meu texto:

Os seus movimentos eram rápidos e curtos. A respiração lenta e cadenciada. As unhas formavam um ângulo recto com a tábua branca e a faca japonesa de cabo preto rasgava legumes com suavidade e mestria. Não fosse o olhar vermelho, pensaríamos que este jantar seria como todos os outros.

Jogo verbal

27 Abr

Era lisa, lisa. Era escorregadia, muito escorregadia. A tua gravidade deslizava por mim abaixo e caía na sarjeta do passeio. E eu, com uma raquete de ténis, a tentar aparar as tuas palavras fluentes e sábias. Mas nunca fui boa com raquetes.

Exercício: utilização de 3 palavras selecionadas de um texto de Ana Hatherly. Em 3 minutos. Escolhi 3 adjetivos – lisa, escorregadia, fluente.

Era um Redondo Vocábulo

25 Abr

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

José Afonso, prisão de Caxias

Guia para Escritores Ousados

23 Abr

Thirteen things I’ve Learned in Thirteen Years

Can you write and breath at the same time?

I have no time

Blues do Veludo Azul

13 Abr

Música FM e chá preto em cortinas de linho rendadas pelo tempo que estiveste ausente. Sobras do que resta viver num qualquer pedestal isolado no jardim das flores. Disseste, não tenho isto, não quero isto, não sei. Não sabes. Dizer as contas do rosário uma a uma. Sabê-las. Olhar guloso as hidrângeas da infância, perfeitamente enquadradas nos muros. Ler as pétalas. Aqui tem uma linha que leva ao coração. Que se interrompe nos voos dos comboios a rebentar na solidão. Pausa. Longa pausa. Não tenho mais construções. Se eu pusesse o dedo indicador na tua pele e abrisse uma artéria, colheria a tua dor gota a gota? Ou só a imensa vastidão dos barcos de papel a afogarem-se em poças de água torvadas pelos dias cinzentos da tua partida? Vejo-te lamber os negrumes insuspeitados do abismo da tua comiseração. Não a quero. Não te disse. Há muito que deixei de te procurar em bares esquivos e redundantes. Há muito que te larguei num qualquer copo de vinho tinto meio cheio, suspeitas de duches a engolir lágrimas.

Dizem sempre, se eu pudesse voltar atrás, e não quero, mas se pudesse, iria encontrar-te no mesmo casaco coçado agarrado à comunidade de arquiteturas ideiais do teu pensamento. Jogarias uma outra carta, dama sem espadas, sem dar conta. Sem saber. Partituras fugidias a correr em espaços quebrados.  Isto não é o amor. Não foi aqui que quis desaguar. Não é este o meu porto. Este bago de uva, este dilacerar da pele nos dentes, não é este o som adstrigente que quero engolir.

Fica quieto. Sente apenas. Este pequeno zumbido de viver. Rebolar de pequenos seixos, murmurar de ralas constrições. Aberturas gasosas a borbulhar sentidos, a deixá-los escapar por todas as frestas. O silêncio dos passos de lã em madeira polida. O pestanejar da chávena tranquila. Chá preto em cortinas rendadas, suspeitas transversais à noite. Preenchimento imediato. Busca frenética. Não, não, não foi assim. Foi mais suave. Fucking suave. No veludo azul. Posso-te dizer que foi mais suave e mais faminto. Nascente de narrativas ambíguas. Estilhaços de vidro a rebentar nesta página. Foi mais azul.

(texto escrito usando a mesma técnica de construção do texto anterior)

Chuva fina em telhados de porcelana branca

6 Abr

Chuva fina em telhados de porcelana branca rasgando os horizontes da tua espera, sobram camadas de ozono nessa quebra e rodam as estrelas nos castelos da praia. Navegam os seixos, degrau a degrau, sempre a sorrir, e sorvem o fluxo da impermanência.

Não há restos, nem crises, não há interrogações, acabaram-se as provas. Podemos parar e apenas estar.

Recolhes os pedaços soltos do naufrágio na praia, preenches os intervalos de todas as partidas. E depois não há. Não há sede de areias suculentas. Não há rebentação, não há choros, não há desejos. Há esta noite. Esta questão. Esta sentença. Que é isto que estou a dizer. Sem mais, sem tudo. Sem a espuma a sair do copo de cerveja na esplanada do castelo. Sem este instante. Vejo-te ainda a recolher os restos. Refeições completas de gente tagarela rodeiam a mesa, as toalhas aos quadrados em cima da terra debulham as espigas de milho. Há este poço, onde quase tu te afogaste, coberto de uma manta de poeira de cebola debaixo da figueira. Imersa na claustrofobia pictórica do quebranto das dores, neste pesadelo esférico, um cobertor a enrolar-me, já esqueci, não aconteceu, não foi assim, e revejo a chuva fina em telhado de porcelana branca, sempre aqui. Este toque ao de leve, esta constância que constróis como uma tecedeira a manusear dextramente os fios quentes no sussurro da imensidão dos rebentos. Sei que continuas aqui e queres falar. Espaço de todos os caminhos mentais, poderia ficar a observar-te continuamente e mesmo assim não acabaria o silêncio dos corpos acéfalos na brusquidão das noites, em repetições estrábicas. Não vês o fim, não tem fim, e, depois, serena, fechas o livro, caminhas pelo rio, deixas que a luz se feche. Fome de águas eternas debaixo da videira, na casa de verões imensos e quentes, repleta da tua presença. Percorro as tuas construções.

(texto produzido em sessão de escrita criativa)